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15 de nov de 2013

"De olhos bem fechados" -- O dilema das aparências (I)




O texto abaixo conta detalhes do filme.



No início desta semana, Luiz Felipe Pondé resolveu falar sobre "Eyes Wide Shut" ("De olhos bem fechados"), filme de Stanley Kubrick ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/138366-kubrick-de-olhos-bem-abertos.shtml  ). Segundo Pondé, EWS é um filme sobre o desejo e sobre a sua perturbação na "vida ordenada". 


Contardo Calligaris, na estreia do filme (em 1999), também deu a sua interpretação. Para Calligaris, "o filme de Kubrick é um filme sobre sexo."  ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq02099915.htm ) 

Tenho uma interpretação diferente (mas não excludente) das duas mencionadas. Para mim, EWS é um filme sobre o dilema das aparências.

Concordo com Calligaris: a melhor tradução para "Eyes Wide Shut" é "De olhos arregaladamente fechados". Acho essa tradução muito boa porque, além de ser um poético oximoro (olhos arregalados e fechados), ela é a que mais se aproxima do excelente título original e a que melhor desnuda o conflito que mencionei. Explico.

O que chamo "dilema das aparências" é a dificuldade de quem, por comodidade, conveniência, covardia, hipocrisia, etc, goza e sofre uma vida inautêntica. É o conflito de quem obtém os proveitos da fachada, mas não suporta seu ônus. É a insurgência daquilo que em cada um de nós não tolera um mundo onde as aparências têm a impossível missão de traduzir toda a subjetividade. Onde as máscaras não devem ser somente parte do que somos, mas tudo o que somos. Onde os olhos, embora abertos, devem estar fechados para aqueles desejos perturbadores.

Em EWS, o médico Bill (Tom Cruise), a sua esposa Alice (Nicole Kidman) e outros personagens vivem esse dilema. Eles estão entediados com as máscaras – isto é, com as concessões e renúncias que fizeram em nome do casamento, da família, da sociedade –, mas parecem temer os desejos. Fecham os olhos para poder desejar (através de sonhos e fantasias) e abrem para poder reprimir e ignorar o que desejam.

Mas não se trata só de Bill, Alice e de outros personagens. O espectador também pode estar “cego”. Se não, me responda: quantos bailes de máscaras há em EWS? Se vc respondeu “um”, é porque manteve os olhos bem fechados para aquela confraternização natalina (há festa mais “familia"?), onde Bill depara-se com sua mulher flertando, com seu próprio desejo de trair e com a quase overdose de uma prostituta, que, no banheiro, fazia sexo com o dono da festa  (ele me pareceu tão bem casado!). 

Contudo, quem não viu as máscaras caírem naquela confraternização, não passa distraído quando Alice, para desfazer a imagem de esposa fiel, revela ao marido o desejo intenso que teve (e tem) por um Almirante que ela vira uma vez na vida.

Aqui, um parêntese: obviamente não é fácil para Bill admitir que a sua mulher (aquela mulher!) deseja outro homem. Nesse caso, não seria melhor manter os olhos fechados? Não seria mais são guardar a imagem idealizada da mulher com quem ele constituiu uma bela família?

Pode ser. Mas, se não for, ou seja, se a escolha for encarar o desejo de Alice, Bill precisará abrir os olhos para os seus próprios desejos e compreender como eles também perturbam a sua aparência de bom cidadão, bom médico, bom amigo, bom pai, bom marido (?). Até porque uma boa forma de perdoar é reconhecer-se ao alcance do mesmo erro, do mesmo pecado, da mesma queda. Fecha parêntese.

Depois que Alice revela seus desejos, Bill recebe um telefonema que o informa sobre a morte de um paciente e sai para consolar Marion Nathanson (Marie Richardson), a filha do falecido. Prestes a casar, Marion, no quarto onde seu pai está sendo velado, beija Bill e confessa que o ama. É outra máscara que cai. É outro cenário improvável para o que ali se passa. É mais um desejo que não se suporta.

Bill deixa o apartamento de Marion, perambula e encontra um grupo de jovens que o chama de "bicha" (será?). Seguindo sua caminhada, Bill -- depois de passar por um experiencia sem sexo com uma prostituta -- entra no Sonata Jazz, bar onde toca Nick Nightingale (Todd Field), seu colega na faculdade de Medicina que abandonou o curso para ser músico. 

Nightingale (atentemos para a simbologia do "rouxinol"), sendo aquele que desafiou a convenção "uma vez médico, sempre médico", oferece a Bill a senha para que ele possa acessar uma experiência extraordinária e transformadora -- uma festa de mascarados, um baile de fantasias, uma sociedade secreta, que seja. O que importa, por ora, é que para ir à festa é preciso coragem, fantasia, senha. E a senha não poderia ser mais simbólica: fidelio. 

A análise segue na próxima semana. 


13 de out de 2013

Um detalhe na biografia de Maquiavel




Segundo Maurizio Viroli*, não era muito raro que Maquiavel se apaixonasse. Uma dessas paixões foi Lucrécia, chamada "Riccia", que foi sua amante por pelo menos dez anos. Conta o biógrafo que Riccia, "uma mulher fascinante", continuou sendo amante de Maquiavel mesmo depois dele estar desempregado e sem dinheiro. Em razão disso, um amigo do florentino confessa-se admirado com o comportamento da amante e assim justifica: "na maioria das vezes, as mulheres costumam amar a sorte e não os homens, e quando essa se modifica, elas mudam ainda mais rapidamente".  

Viroli relata que Maquiavel e Riccia viveram "uma aventura um tanto escabrosa (....) a qual foi omitida convenientemente por seus biógrafos: 

"Trata-se de uma acusação anônima de sodomia apresentada aos Oito da Guarda, magistratura encarregada da justiça criminal, em 27 de maio de 1510. Cito o texto da acusação: 'Notifica-se a Vós, Senhores Oito, como Nicolau de Messer Bernardo Machiavelli fodeu Lucrécia, dita a Riccia, no cu. Interrogai-a e descobrireis a verdade.'"

Diz Viroli que naquela época a sodomia era um delito que poderia ser punido com "multas, humilhações públicas e encarceramento e que, até 1502, existia um órgão especial, os "Oficiais de notas e conservadores dos mosteiros", "encarregado da repressão dos assim chamados atos sexuais contra a natureza".

"Na prática o ato era tolerado, e a denúncia não deu em nada", informa o biógrafo.



* Viroli, Maurizio. O Sorriso de Nicolau: história de Maquiavel. Tradução de Valéria Pereira da Silva. São Paulo: Estação Liberdade, 2002, p. 193.



  

6 de set de 2013

Aforismo




A pior forma de anonimato é a falsidade. 


1 de set de 2013

Trabalhador ou estudante?




Como é cediço, a Medida Provisória 621, de 08/07/2013, ( http://goo.gl/QZJjek ) instituiu o Programa Mais Médicos, cuja finalidade, nos termos da própria MP, é "formar recursos humanos na área médica para o Sistema Único de Saúde - SUS" (art. 1º, grifamos).

Para atender essa finalidade, a MP, em seu Capítulo II, alterou a formação médica no Brasil e, no Capítulo III, criou o Projeto Mais Médicos, oferecido a: 1) médicos formados em instituições brasileiras ou com diploma revalidado; 2) médicos formados em instituições estrangeiras, "por meio de intercâmbio médico internacional" (artigo 7º, inciso II).

Segundo a Exposição de Motivos da MP, "a instituição do Projeto Mais Médicos para o Brasil visa possibilitar a seleção de médicos interessados em participar de ações de aperfeiçoamento em atenção básica", acrescentando que, para tanto, "serão oferecidos cursos de especialização" e "concessão de bolsas-formação" (grifamos).

Com efeito, a MP 621/13 estabelece que o médico participante do referido Projeto será submetido a um curso de especialização, com avaliações periódicas e duração de até três anos, que envolverá "atividades de ensino, pesquisas e extensão", que terá componente assistencial "mediante integração ensino-serviço" (art. 8º, caput, grifamos).


A aludida MP estipula, ainda, que integrarão o Projeto Mais Médicos, além do médico participante e do supervisor, a figura de um tutor acadêmico. De acordo com o artigo 13, incisos I a III, os integrantes receberão "bolsa- formação", "bolsa-supervisão" e "bolsa-tutoria", respectivamente.


Ora, é evidente o paralelismo entre o Projeto Mais Médicos e os cursos de Residência Médica. Estes, segundo o artigo 1º, da Lei 6.932/81 ( http://goo.gl/wtgJHt ), constituem "modalidade de ensino de pós-graduação, destinada a médicos, sob a forma de cursos de especialização, caracterizada por treinamento em serviço, funcionando sob a responsabilidade de instituições de saúde, universitárias ou não, sob a orientação de profissionais médicos" (grifos).


Além disso, o médico-residente -- assim como o médico participante do Projeto em tela -- recebe bolsa (e não salário), não paga, nessa condição, imposto de renda, e é filiado ao Regime Geral de Previdência Social - RGPS como contribuinte individual. 

Ou seja, o integrante do Projeto Mais Médicos tem o mesmo tratamento tributário e previdenciário do médico-residente, restando decidir qual o tratamento que ele deve receber da legislação trabalhista. 

Que o integrante do Projeto Mais Médicos não é, a priori, um empregado, pode-se concluir da leitura do artigo 11, da MP 621/13, que estabelece:

Art. 11. As atividades desempenhadas no âmbito do Projeto Mais Médicos para o Brasil não criam vínculo empregatício de qualquer natureza. (grifamos) 


Ocorre que, embora esteja excluída, em tese, a possibilidade de que o médico em questão seja um empregado (espécie), é possível que ele seja, no plano teórico, um trabalhador (gênero). Aliás, a ADIN ajuizada pela Associação Médica Brasileira (AMB) chega a cogitar, no que tange aos médicos cubanos, da possibilidade de "trabalho escravo". 

Penso que o argumento não se sustenta. Como dissemos, a configuração dada ao Projeto Mais Médicos é análoga àquela dada aos cursos de Residência Médica. Nesse sentido, em 25/05/2011, analisando o RR - 29500-53.2008.5.15.0046, a 3ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho decidiu, por unanimidade, que a residência médica não configura relação de trabalho, sendo o residente mero estudante e não trabalhador ( http://goo.gl/BzbQn2 ). 

Sendo assim, mantida a analogia entre o residente-médico e o participante do Projeto em exame, não há como deixar de concluir que este é, a priori, e sob o prisma estritamente jurídico-trabalhista, igualmente um estudante. 

No tocante aos médicos cubanos, fixado que eles estão participando de um curso de especialização que envolve o binômio ensino-serviço, tal como ocorre nos cursos de Residência Médica, como sustentar que há trabalho escravo? Se nem sequer é "trabalho", como pode ser "escravo"? 

Afastada a possibilidade de que as atividades desenvolvidas no Projeto Mais Médicos sejam de natureza trabalhista, entendemos que não é aplicável ao caso qualquer norma do gênero, seja interna, seja de Direito Internacional. 

É claro que a relação com os médicos pode ser desvirtuada e, desse modo, passe a configurar uma relação trabalhista, mas para se chegar a essa conclusão é necessário observar o dia a dia dos integrantes, o que ainda não é possível. 

É bastante provável que essa configuração análoga à Residência Médica tenha sido dada ao Projeto no intuito de fugir dos encargos trabalhistas envolvidos numa contratação. Por óbvio, sendo juridicamente estudantes, não há que se falar em "direitos trabalhistas". 

Por fim, vez que o diploma dos médicos formados em instituição estrangeira não será revalidado, e posto que, nos moldes da MP 621/13, as atividades a ser desempenhadas pelos integrantes do Projeto é de natureza educacional, é de se perguntar: "Mais Médicos" ou "Mais Estudantes"?

Juridicamente, não hesito em afirmar: estamos recebendo mais estudantes.


16 de ago de 2013

Aforismo




A tarefa é a tara do atarefado.



Poema



Erro bom é
Erro novo.
E o melhor de todos
Alimenta-se, aquecido,
Iminente, perigoso,
No interior do ovo.



20 de jul de 2013

Aforismo





A vaidade impede a homenagem em vida. E só não a impede após a morte porque não acreditamos que esta seja uma boa sorte.


14 de jul de 2013

Aforismo




Não entendo a natureza andarilha do cheirador de cartilha. 


9 de jul de 2013

Pílulas de Jeremiaz



Plebiscito 
Para 
Engabelar 
A Plebe


8 de jul de 2013

Antiga e perigosa




Essas observações de Benjamin Constant revelam que a tentativa de legitimar uma violação constitucional por meio da participação popular é um expediente tão perigoso quanto antigo. Seguem:



Existem, eu sei, meios meritórios de se enfeitarem as violações constitucionais com aparente legitimidade. O povo pode ser encorajado a manifestar seu julgamento por meio de petições conjuntas; pode-se fazer com que ele sancione as alterações propostas. 

[...]

As sanções civis e as petições de massa foram concebidas pelos homens que, não encontrando apoio, seja na moralidade, seja na razão, vão buscá-lo na aprovação simulada que obtêm via ignorância ou extraem pelo terror.*

[...]



*Nessa altura, o livro traz a seguinte nota: "Sobre a questão das petições de massa, Constant disse em seu discurso de (...) (1• de fevereiro de 1800), para o Tribunal: 'Tem havido muitos abusos delas durante o curso de nossa Revolução. Cada uma de nossas crises foi seguida por um dilúvio de tais petições que jamais provaram coisa alguma, salvo profundo horror dos fracos e o despotismo dos fortes' (...)" (p. 172). 



Constant, Benjamin. “Princípios de Política aplicáveis a todos os Governos”. Tradução de Joubert de Oliveira Brízida. - Rio de Janeiro: Topbooks, 2007.



4 de jul de 2013

Aforismo




Era um homem de sorte: recebeu em vida todos os elogios que, costumeiramente, só se ganha após a morte. 


O bom niilismo




Antes aforismo; agora poema. 


A razão
niilista
é
consumista


2 de jul de 2013

Inveja




Trecho de "Parerga e paralipomena", de Schopenhauer.


[...] Pois que o homem, na contemplação do prazer e da propriedade alheios, sinta amargamente a própria carência, é natural, e mesmo inevitável: apenas isto não deveria erguer o seu ódio contra o felizardo; mas precisamente nisto consiste a inveja. Muito menos, contudo, esta deveria se originar onde não são as dádivas da sorte ou do acaso, ou do favor alheio, mas aquelas da natureza que constituem o motivo; porque todo o inato repousa em uma base metafísica, possui portanto uma justificativa mais elevada, e por assim dizer, é da graça divina. Infelizmente porém a inveja se comporta de modo inverso: no caso de vantagens pessoais, é a mais irreconciliável, destarte, a esperteza, e ainda mais a genialidade, são obrigadas primeiro a pedir perdão, sempre que se situam em posição de desprezar o mundo com orgulho e audácia. Pois quando a inveja é produzida somente pela riqueza, posição social ou poder, frequentemente é atenuada pelo egoísmo; ao considerar este que do invejado, no caso em questão, se pode esperar ajuda, prazer, amparo, proteção, promoção, etc., ou que ao menos no contato com ele, iluminado pelo reflexo de sua distinção, podem-se usufruir honrarias: também aqui permanece a esperança de algum dia se apropriar de todos aqueles bens. Porém, para a inveja orientada às dádivas naturais e vantagens pessoais como é a beleza para as mulheres, e o espírito para os homens, não há consolo de um tipo, e esperança do outro; assim nada mais lhe resta senão odiar os assim privilegiados amarga e irreconciliavelmente. Por isto, seu único desejo é se vingar em seu objeto. Aqui contudo se encontra na infeliz situação de que todos seus golpes serão impotentes, tão logo se revele que partiram dele. Por isto se oculta tão cuidadosamente, como os secretos pecados da volúpia, e torna-se agora inesgotável inventor de manhas, ardis e astúcias para se ocultar e mascarar e ferir seu objeto sem ser visto. Assim por exemplo: ignorará com a mais natural das expressões as vantagens que devoram seu coração, não as perceberá, nem nunca reconhecerá que as notou e jamais delas ouviu falar, tornando-se um mestre da dissimulação. Provido de grande finura, não dedicará aparentemente atenção alguma àquele cujas qualidades brilhantes lhe corroem o coração, dele não tomará notícia e ocasionalmente o terá totalmente esquecido. Entrementes, porém, se esforçará antes de tudo, mediante maquinações secretas, em privar cuidadosamente aquelas vantagens de toda oportunidade de se revelarem e se tornarem conhecidas. Em seguida, da escuridão lançará sobre elas censura, escárnio, zombaria, calúnia, igual ao sapo que do interior de um buraco lança o seu veneno. [...]. Resumindo, tornar-se-á um Proteu em estratagemas, para ferir sem revelar. Contudo, de que adianta?




Schopenhauer, Arthur. "O mundo como vontade e representação, III pt.; Crítica da filosofia kantiana; Parerga e paralipomena, cap. V, VIII, XII, XIV". Traduções de Wolfgang Leo Maar e Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola. -- 2. ed. -- São Paulo: Abril Cultural, 1985, pp. 198/199.


29 de jun de 2013

Aforismo



Eu sou o meu estereótipo. 

25 de jun de 2013

Ex-PEC



Vamos
Expectorar
A PEC
37


21 de jun de 2013

Aforismo

ManiFestAçao: não dá pra separar a festa da ação. 

19 de jun de 2013

EXTRAORDINÁRIO esse artigo de Marcelo Coelho




Reproduzo aqui esse mais que excelente artigo de Marcelo Coelho, publicado hoje (19/06/2013), na Folha de São Paulo, que traduz com precisão política, psicológica e sociológica o clima, o espírito, a atmosfera, o Zeitgeist, enfim.    


A arte do impossível


"Se vocês não nos deixam sonhar, nós não deixamos vocês dormir", dizia um cartaz na passeata


Havia cartazes sobre quase tudo, e bandeiras das mais variadas, na manifestação de anteontem em São Paulo. Por vezes, não passavam de uma folha de papel de tamanho um pouco maior, sem sinal de representar alguma luta coletiva.

Alguém simplesmente pegava o papel e escrevia o que pensava. "Não são os 20 centavos", dizia um cartaz. Com certeza.

O aumento das tarifas de ônibus, de 6,6%, estava no programa --e, conforme o ano que se tome como base, pode ser qualificado como inferior (ou não) aos índices inflacionários.

Não se reuniriam tantos milhares de pessoas, entre estudantes e gente de cabelo branco, entre garotões de classe alta e adolescentes da periferia, se a PM não tivesse dado o seu "show" de truculência na semana anterior.

Imagino que com a passeata se quis mostrar, acima de tudo, o espírito desarmado da grande maioria --e sua capacidade de fazer, como tantas vezes aconteceu no Brasil, protestos de massa com fraternidade e alegria.

Assim, algumas pessoas acompanharam a passeata com flores brancas nas mãos. A roupa branca, cujo uso se recomendara nas convocações, não chegou a constituir um sucesso. Na parede de um prédio, projetaram-se imagens de Gandhi.

Não foi, entretanto, apenas um protesto contra a violência policial, como não foi só contra o aumento dos ônibus. O governador Alckmin e o prefeito Haddad foram xingados à vontade, é claro. Mas havia outro espírito movendo aqueles milhares de pessoas.

"Se vocês não nos deixam sonhar, nós não deixamos vocês dormir", dizia um cartaz. Ideias desse tipo, com trocadilhos interessantes ou mesmo palavras de ordem genéricas, como a de que "o país acordou", brotavam de todos os lados, um pouco ao estilo de maio de 1968 na França.

Apareceram coisas díspares: cartazes com escritos em inglês ("ônibus free", algo assim) ao lado de bordões verde-amarelos antiquíssimos ("verás que um filho teu não foge à luta"). Pouco importa.

Quiseram as circunstâncias que PT e PSDB se equalizassem no repúdio dos manifestantes. O aumento do ônibus e a violência da PM tiveram um poder que, passe o trocadilho, valeria chamar de "alquímico".

Estava latente a sensação de que os dois grandes rivais da política brasileira se equivalem, cada qual com seus mensalões, sua tecnocracia paralisada, suas promessas cínicas, sua sensatez, seu realismo.

Para que tudo ficasse mais claro, Haddad e Alckmin estavam juntos em Paris. Todo prefeito sabe que, diga-se o que se disser, chega a hora de aumentar o ônibus. Todo governador sabe que, diga-se o que se disser, chega a hora de usar as balas de borracha.

Não me sai da cabeça a foto de Haddad selando, aos sorrisos, seu pacto com Paulo Maluf, na campanha eleitoral. Todos seguem a esfuziante frase com que Fernando Henrique sagrou seu pragmatismo: "A política é a arte do possível".

Pode ser, e tem de ser, a arte do impossível também. É isso o que milhares de manifestantes estavam mostrando na segunda-feira.

De alguma forma, vai-se esgotando a legitimidade de um pragmatismo, de um aliancismo, de um cinismo, de um petismo, de um peessedebismo que nada têm a oferecer em termos de valores e de ideais.

Por isso mesmo, "não são os vinte centavos" o que está em jogo. O pragmatismo que leva a tantas alianças políticas com a direita passa a ser contestado, principalmente pelos mais jovens. São aqueles que também dizem, na internet, que o pastor Feliciano não os representa.

Havia cartazes de cunho bastante "liberal" ou "neo-Fiesp" na passeata. Mensagens contra a corrupção e em defesa de um bom uso do "dinheiro dos meus impostos" eram comuns. De todos os cartazes, entretanto, o de que mais gostei estava sendo levado por uma moça e tinha linguagem chula. Dizia apenas: "Copa é o caralho".

Talvez seja uma boa síntese do momento. É que, a começar dos políticos do PT, vive-se numa espécie de comemoração permanente --o país está ótimo, vivemos um momento extraordinário, construímos estádios e todos estão felizes.

Abaixo a Copa do Mundo, talvez quisesse dizer a moça do cartaz: pelo menos, expressou sua impaciência diante da sorridente enganação geral. É esse sorriso, feito da insensibilidade, do cinismo e do oportunismo de décadas, que a passeata pretende tirar do rosto dos governantes.


15 de jun de 2013

Três belos aforismos de Cioran




Não queremos mais suportar o peso das "verdades", continuar sendo suas vítimas ou seus cúmplices. Sonho com um mundo em que se morreria por uma vírgula. 


Quando estamos a mil léguas da poesia, ainda dependemos dela por essa súbita necessidade de uivar -- último grau do lirismo.


Só cultivam o aforismo os que conhecem o medo no meio das palavras, esse medo de desmoronar com todas as palavras.



In: "Silogismos da amargura". Tradução de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.


11 de jun de 2013

Um poema do poeta português: António Gil





Agradeço ao excelente poeta português António Gil por ter-me enviado e autorizado a publicação desse extraordinário poema, que é inédito, aqui no blog. Estou honrado! 
     


Erosão e tempestades
dotaram por meios lícitos
o meu sol de cavidades
meu coração de solstícios

Por sede ou fome de luz
na boca da vastidão
onde o sol se pôs, eu pus
por troca, meu coração

Assim posto vou, de porto
em porta, ao vento afeito
coração fora do corpo
com o sol dentro do peito



GIL, ANTÓNIO. "O céu na Boca" (a publicar).

8 de jun de 2013

Aforismo



Quem usa a direita é destro. 
Quem usa a esquerda é sinistro. 
Quem usa as duas é Afif. 


3 de jun de 2013

Aforismos




A razão niilista é consumista.


Na próxima esquina, o seu passado emboscará o seu futuro.


A preguiça é o corpo pedindo missa.


30 de mai de 2013

Entrevista com o escritor e colunista: Marcelo Coelho




Formado em Ciências Sociais e mestre em sociologia pela USP. Ensaísta, escritor, colunista e membro do conselho editorial da Folha de São Paulo. Tradutor de Voltaire e Paul Valéry. Autor de "Tempo medido" (Publifolha, 2007), "Noturno" (Iluminuras, 1992), "Jantando com Melvin" (Imago, 1998) e "Cine Bijou" (Cosac Naify/Edições SESC SP, 2012), entre outros, Marcelo Coelho concedeu-me a entrevista que segue, onde fala sobre a relação burguês/boêmio, Chesterton, "petismo de direita", a "classe média que se vê refletida nas páginas da Veja" etc. 

Ao ser perguntado se a oposição errou ao não ter buscado o impechment de Lula no caso do "mensalão", Coelho responde: "Acho que tentar o impeachment do Lula seria um erro de proporções venezuelanas". E diz mais... 

A Marcelo Coelho, o meu muito obrigado. Estou grato e honrado com a abertura, a atenção e a generosidade. Confiram: 


AETANO - Segundo Luc Ferry ("A Revolução do amor", Objetiva, 2012), "era necessário que os valores e as autoridades tradicionais fossem desconstruídos pelos boêmios para que o capitalismo, também ele moderno, pudesse entrar na era do grande consumo, sem o qual sua expansão seria simplesmente impossível". Para aquele autor, os boêmios queriam acabar com o mundo burguês, mas, sem o saber, o que fizeram foi expandi-lo e fortalecê-lo como nunca. Em suma, de acordo com Ferry, o boêmio é irmão do burguês. Você concorda?

MARCELO COELHO - Bom, não li o livro de Ferry, de modo que não conheço o contexto da afirmação, e menos ainda sei aonde ele quer chegar. Trata-se de desacreditar o modo de vida boêmio? Mas que boêmios são esses? Há o boêmio-artista, um criador. Há o boêmio-dândi, o "decadentista", no gênero dos personagens de Oscar Wilde, que é um fruidor e um aristocrata. Há o boêmio-lumpen, o desajustado, o amalucado, o sem eira nem beira, um refugo da sociedade capitalista. Entende-se aqui "capitalista" como o sistema da primeira revolução industrial, e esses três tipos como presentes na sociedade vitoriana. Bem, é óbvio que o capitalismo se expandiu para além da sociedade vitoriana e de sua moral excessivamente rígida. Podemos perfeitamente considerar que esses três tipos representaram a crítica ao moralismo vitoriano, ok. Era esse o tipo ideal de capitalismo? Não necessariamente, imagino. Por que não dizer que, dado o processo de liberação dos costumes, surgiram novas necessidades de consumo, maior competitividade sexual, e que o capitalismo, como sempre, tratou de atender a essas demandas? Por outro lado, podemos pensar que os ganhos de produtividade e as lutas sociais pelo tempo livre determinaram a emergência, primeiro, de uma adolescência estendida no tempo, com gente de vinte a trinta anos sem necessidade de entrar diretamente, ou sem poder entrar diretamente no mercado de trabalho. Foram atores importantes na contestação do capitalismo, na aquisição de novos bens culturais, na produção de arte, na libertação dos costumes. O processo corre em paralelo-- o capitalismo trata de adaptar-se a essa nova realidade cultural. Por que apontar o dedo, como faz Ferry, dizendo que "ajudaram o capitalismo a se expandir"? Não podemos dizer igualmente que ajudaram "o socialismo a se expandir"? A igualdade (entre os sexos, por exemplo, a se expandir)? A liberdade individual a se expandir? Ou que ajudaram a eliminar os resquícios da autoridade patriarcal, que era aristocrática e burguesa conforme a situação, e que não era essencial, exceto num primeiro momento, ao capitalismo? Penso na necessidade de alianças, na Inglaterra, entre industriais e donos de terra. Era uma situação em que o casamento imposto pela família podia ser essencial ao status quo. Deixa de ser, provavelmente, mais tarde; seria preciso um trabalho de historiador para dizer por quê. O que me incomoda, em suma, nessa frase de Ferry é ver a ironia da história apenas no sentido "ruim" --"olha aí, os críticos do sistema acabaram servindo ao sistema"-- para desqualificar a crítica ao sistema, sem reconhecer que a crítica também teve suas vitórias sobre o sistema, que este se modificou (basta pensar na situação das mulheres).

AETANO - Concordo com vc, Marcelo. E Luc Ferry consigna que existem vários boêmios, e conflitos entre eles, que, todavia, têm algo em comum: a juventude, a crítica aos filisteus e ao modo de vida burguês. Registra também que o burguês, embora vencedor na arena do consumo, é um perdedor no terreno dos costumes. Observo, porém, que o burguês está por aí. Mas e o seu irmão? Onde estão os boêmios de hoje? Não lhe parece que eles foram "incorporados"? Provocando mais ainda: não lhe parece que o boêmio de hoje é um entediado?

MARCELO COELHO - Bom, criou-se até a figura do "bohemian bourgeois", o alternativo certinho, artista e rico. Mas não vejo o desaparecimento de figuras boêmias quando passo na Praça Roosevelt, por exemplo --muito remotamente incorporados ao sistema, a menos que seja quando conseguem uma miséria de alguma verba cultural. A questão é que a boemia não é oposta ao mundo burguês, como o proletariado. A boemia se localiza na oposição ao mundo do trabalho --assalariado ou pequeno-burguês. Criam-se vários subtipos de pessoas não adaptadas ao trabalho assalariado --o artista mambembe, o tradutor por conta própria, o jornalista free-lancer... Chamam isso na França do "intelectual precário". Há também os boêmios artistas, que podem ser cooptados posteriormente na medida de seu sucesso. O boêmio, hoje, entediado? Mas o "spleen" de Baudelaire tem mais de 150 anos.

AETANO - [rssrs]... É, como dizia Walter Benjamin, Baudelaire era um lírico no auge do capitalismo... 
Marcelo, "Ortodoxia" ("Ilustrada", Folha de São Paulo, 06/02/2008) e "O demolidor de clichês" ("Ilustríssima", Folha de São Paulo, 24/10/2010) estão, para mim, entre os melhores textos que você já publicou na Folha. Ambos cuidam de G. K. Chesterton. Como você vê a recepção desse escritor no Brasil? Você não o acha negligenciado? Mais que negligenciado, você não acha que há um preconceito em relação a Chesterton só porque ele era declaradamente católico? 

MARCELO COELHO - Acho que Chesterton não é negligenciado apenas no Brasil. Criei interesse por sua obra lendo Jorge Luis Borges, que era especializado em preferências literárias "heterodoxas" para sua época. Chesterton se sabia minoritário e extravagante, num meio anglicano e cientificista. Fez da extravagância uma arte, mas não deixa de ser extravagante. Enquanto isso, o pensamento católico tratava de se modernizar, adaptando-se a Darwin e Marx. Natural que também nesse ambiente Chesterton ficasse deslocado.

AETANO - Na cultura brasileira, a esquerda sempre foi hegemônica. Hoje, o pensamento conservador, ainda que meio caricato e desorganizado, já começa a ter mais espaço em jornais, revistas e em publicações diversas. Por exemplo, estamos prestes a receber a primeira tradução de "The Conservative Mind", de Russel Kirk, e apenas em novembro do ano passado foi publicada, aqui no Brasil, a tradução de outro cânone do conservadorismo: "Reflexões sobre a Revolução na França", de Edmund Burke (TopBooks). Como você vê essa emergência conservadora? Será que ela levará a uma definição das posições políticas por aqui, ou seja, será que um dia teremos a esquerda à esquerda e a direita à direita (tomei "direita" e "conservadorismo" como sinônimos)?

MARCELO COELHO - Pois é, Aetano, acho que o fenômeno no Brasil segue a tendência internacional, que cresce a cada novo "marco histórico": o sucesso eleitoral de Reagan e Thatcher; a queda do Muro; o Onze de Setembro. As posições políticas já estiveram bem mais definidas por aqui. Com o crescimento conservador, a esquerda tem procurado na verdade se moderar --pelo menos é o que acontece em outros países, a começar dos Estados Unidos, onde há medo de assumir como "liberal". Isso no plano das ideologias políticas. Na prática, toda experiência de poder tende a tornar mais direitistas os partidos de esquerda, e isso acontece aqui também. Soma-se a isso a aliança entre petismo, corrupção e evangelicos, para que surja um verdadeiro "petismo de direita" no país.

AETANO - Mas você não acha que a corrupção é a coisa mais bem distribuída por aqui? Ou seja, não é maniqueísta associar "corrupção" e "petismo" para cunhar a expressão "petismo de direita", como se a corrupção fosse um atributo inerente aos adeptos do direitismo? 

MARCELO COELHO - Claro, a corrupção é bem distribuída mesmo. O petista de direita, entretanto, é aquele que em vez de falar, como antes, em mudar o modo de se fazer politica no país, fala agora em defesa da razão de Estado e argumenta que faz o que todo mundo faz. Defende os aliados conservadores argumentando que contra eles a imprensa exerce um preconceito de classe. Apoia megaprojetos de infraestrutura que agridem o meio ambiente dizendo que os ecologistas são chatos e fantasiosos. Diz que estão no mundo da lua os deputados que se opõem a cobrar taxa previdenciária de quem já se aposentou. Defende um ministro que violou o sigilo bancário de um caseiro. Etc.

AETANO - A sua coluna "Questões de Ordem", que cobriu as sessões do julgamento do mensalão, foi considerada, com razão, "o melhor relato da imprensa brasileira sobre o julgamento". Após ter acompanhado tão de perto o caso, você acha que a oposição errou ao não buscar o impechment de Lula?

MARCELO COELHO - Acho que tentar o impeachment do Lula seria um erro de proporções venezuelanas. São discutíveis as provas contra o José Dirceu. Contra o Lula seria necessário um passo muito mais temerário. O impeachment é um processo muito político. Fazer isso contra um presidente com altos índices de popularidade, com bons resultados na economia? Collor teve contra si não apenas os escândalos de corrupção, mas altíssimos índices de inflação e desgoverno.

AETANO - "Eu odeio a classe média", disse Marilena Chauí. Na sua coluna de 22/05/2013 (Folha de São Paulo), você afirma que concorda com Chauí, "se definirmos classe média como o grupo que se vê refletido nas páginas de 'Veja'". Que classe média é essa que se vê refletida nas páginas de 'Veja'? Quais são seus outros traços característicos? 

MARCELO COELHO - Bem, acho que uma boa definição foi dada, se não me engano, por Roberto Schwarz quando disse que no Brasil os beneficiários do sistema se sentem vítimas do sistema. Seria, em tese, aceitável essa atitude, quando se pensa que a pessoa tem de gastar em segurança e educação aquilo que não é provido por um Estado mais eficiente. Mas fico bastante incomodado quando as pessoas reclamam dos impostos e dizem que pagariam com prazer se o Estado lhes devolvesse em serviços aquilo que pagam. Ora, um país que ainda está sendo construído tem gastos imensos em infra-estrutura, etc., que mal e mal se retomam, enquanto todo mundo ganhava com os juros que o governo pagava para se segurar com a dívida pública... Enquanto isso, leem a Veja, que trata aprovativamente de despesas com aniversários de pets e valets de luxo. Tudo se dirige de tal forma para o interesse do consumidor individual, que até críticas corretas à corrupção se contaminam pela mais descarada ausência de compromisso com o bem-estar geral da população.

AETANO - No último capítulo de Cândido, Pangloss, Cândido e Martinho encontram um velho turco que, alienado dos acontecimentos que o cercam, dedica-se somente à família e ao trabalho. O trabalho, segundo o velho, é o remédio para três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade. Cândido, após refletir profundamente sobre o discurso do turco, concluiu: "É preciso cultivar o nosso jardim". Ao que Pangloss responde: "Tendes razão, pois quando o homem foi posto no Jardim do Éden, foi ali colocado ut operaretur eum, para que nele trabalhasse, o que prova que o homem não nasceu para o repouso".

"É preciso cultivar o nosso jardim", repete Cândido, pouco depois, e o romance acaba. Sobre esse final, Flaubert diz: "a marca do mestre está nessa lacônica conclusão, tão estúpida quanto a vida em si". 

É isso mesmo? A vida é tão estúpida quanto? Ou é a conclusão dessa grande obra que não está à altura?

MARCELO COELHO - Acho que Flaubert sempre gosta de ver estupidez em tudo. Isso não o torna especialmente inteligente. Pelo menos, é claro que Voltaire era mais inteligente do que Flaubert. Nenhuma frase, por si só, seria capaz de resumir toda a sabedoria de um autor ou todo o conjunto da experiência humana. A própria frase de Pangloss, concordando com a do turco, ironiza-a ao mesmo tempo. Pode-se entendê-la, de qualquer modo, de formas muito variadas. Depende do que você entende por jardim; trata-se apenas daquilo que convém a seu interesse material egoísta? Ou o jardim pode ser o país, para um governante, ou a obra, para um escritor? Trata-se de fazer bem aquilo que se pode fazer? Não acho tão tolo assim.

AETANO - Sim, a interpretação está naquilo que entendemos por "jardim", tanto que, logo após a declaração de Pangloss, o narrador esclarece que "cada um se pôs a exercer os seus talentos": Cunegunda "se tornou uma excelente confeiteira; Paquete bordava; a velha cuidou da roupa"; Giroflée tornou-se marceneiro e Pangloss continuou filósofo. Ainda assim, Marcelo, não é irônico, trivial e até mesmo frustrante que o "jardim", metáfora de um iluminista, seja uma flagrante repetição de uma parábola bíblica (refiro-me à parábola dos talentos: Mt 25, 14-28)? 

MARCELO COELHO - não conhecia a parábola não!! Talvez o contexto mude tudo... depois de tantos horrores no romance a frase ganha um efeito de alívio, seria na verdade difícil imaginar um outro desfecho. Nesse sentido não acho frustrante...

AETANO - "Há bastante tempo não aparece um filme realmente difícil de entender. Penso naqueles de arte que passavam no cine Bijou aí por 1970".

Assim você começa "O que eles querem dizer com isso", coluna publicada na Folha de São Paulo, em 01/05/2002. 

"Cine Bijou" é também o título de um livro seu com ilustrações de Caco Galhardo (Cosac Naify/Edições SESC SP, 2012). O livro é um relato autobiográfico, nostálgico, mas também muito engraçado. Nele, em certa altura, você diz (transcrevo também para a diversão dos leitores desta entrevista):

"[...] Os [filmes] que vi no Bijou eram ainda mais difíceis de entender. Um casal brigava interminavelmente numa úmida ilha norueguesa. O homem consertava o telhado da casa de madeira. A casa, pintada de marrom escuro ou de preto, parecia atrair todo tipo de nuvens. O homem deixa cair o martelo lá de cima. O fato assume uma importância transcendental. De repente, tudo para. A atriz aparece à frente de uma parede branca e, como se fosse uma entrevista, diz o que acha da personagem que ela mesma está interpretando. A história continua; a mulher tem um pesadelo, filmado em preto e branco, com um monte de velhos remando um barco. Os símbolos se acumulam como nuvens. Alguém lê uma carta. A câmera passa com rapidez entre as letras datilografadas da carta, filmadas muito de perto, como se não as conseguisse ler. Acabava o filme e, nessas horas, eu me sentia extremamente idiota." (p. 26).

Pois é, você não acha que no meio "cult" vige ou paira no ar a ideia de que a qualidade de um filme é diretamente proporcional à sua incompreensibilidade? Ou isso já está fora de moda? 

MARCELO COELHO - Não sei, me parece que está fora de moda. Caso típico, "Solaris", de Tarkovski, encarado na época como coisa seríssima. Nunca assisti, e agora ninguém assiste, eu acho. O "cult", como eu entendo, é fruto do processo de reavaliação pelo qual uma obra meio marginal, ou especialmente típica, da cultura de massa de um período se eleva ao plano da alta cultura na geração seguinte. Filmes B, filmes noir, pequenos mestres desconhecidos do cinema de 1940 são candidatos a cult. O "meio cult", como você diz, ou seja, os "culturetes", se deixa atrair por isso ou pelo cinema não-americano em geral, mas compartilha de certo desapreço pelo alegórico, que era a marca do cinema mais prestigiado por volta de 1970.


25 de mai de 2013

Aforismos




Amar é acordar e sentir saudade da mulher que ao seu lado dorme.


O grifo é um grito sem a desagradável noção de atrito. 


24 de mai de 2013

Myrna (pseudônimo de Nelson Rodrigues) escreve:




[...] Existe, minha amiga, uma arte de dar conselhos, e outra arte de os receber. Para mim, para meu gosto pessoal, o melhor e mais sábio conselho seria este: - “Faça o que quiser”. E, com isso, daremos, à pessoa, o direito de optar entre o bem e o mal, o certo e o errado. Porque ninguém tem mais direito, do que o principal interessado, de acertar ou errar. É preciso que ele fique com as consequências, glórias e prejuízos do bem e do mal que faz. Exemplifiquemos: se eu aconselho uma pessoa a proceder bem, e ela obedece, a virtude é minha, e não da pessoa. Outra hipótese: se eu digo “faça o que quiser” e ela procede bem, então, sim, o mérito é, realmente, da pessoa. Por outro lado, existe uma arte de receber conselhos. E essa arte consiste em não os seguir, salvo em casos excepcionais, e quando ele coincide, por acaso, com os nossos pontos de vista e a nossa sensibilidade moral. [...].



Rodrigues, Nelson. “Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo: o consultório sentimental de Nelson Rodrigues” -- São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 102.

20 de mai de 2013

Olavo Bilac: "Inania Verba"




                                 Inania Verba


Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
-- Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que se deslumbrava...

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?!



Bilac, Olavo. "O caçador de esmeraldas e outros poemas". Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.   

15 de mai de 2013

Iosif Landau: "Inseto"




Esta semana eu recebi, de Elena Landau, o último livro de poemas de seu pai: "Alarme". O livro é surpreendente! Iosif Landau começou a escrever aos 70 anos, mas a sua poesia tem um vigor, uma virilidade, um erotismo, um ritmo e uma intensidade juvenis. O poema que deixo agora apresenta, ainda, uma outra qualidade dessa obra: o humor.



Inseto


tá tudo em ordem:
não há herança nem dinheiro nem poupança.

testamento é folha em branco,
não há bens nem castelos na França.

tô bem de corpo e cabeça, não estou demente,
não deixo remédios nem camisa de força pros herdeiros.

apenas eu e minha imagem no espelho
coçamos os pentelhos o dia inteiro.

livros e discos e roupas e retratos
esperam pacientes os ratos festejarem.

descanso na tarde sombria sem companhia
quem se importa se ainda enxergo, ouço ou mijo?

amor, carinhos e abraços, do outro lado,
lamento não ter virado sabão no passado.

allons enfants de la Patrie,
le jour de gloire est arrivé

estou indo pro cacete
como todo inseto

nous y trouverons leur poussière



Landau, Iosif. Alarme. Belo Horizonte: Sografe, 2011. 



10 de mai de 2013

Clara Favilla: A propósito de chuvas temporãs e chuvas serôdias






Deixo aqui um texto que achei muito bonito, de autoria da minha amiga Clara Favilla, a quem agradeço pelas observações elogiosas a meu respeito, as quais, de resto, não passam de expressão de uma italiana generosidade.



Dizem que usamos no máximo 200 palavras pra expressar o que queremos no dia a dia. Estamos acostumados a um vocabulário pobre e recorrente. Um  linguajar arroz com feijão, de tão básico. Como feijão parece que também está saindo de moda, melhor chamar esse linguajar de arroz com arroz. E daqueles sem sal, sem salsa ou qualquer especiaria. 

Jornais e revistas, noticiário televisivos, filmes até os de trama mais complexas, sem falar nas peça publicitárias, contribuem para essa nossa pobreza na comunicação oral e até escrita. Afinal, tudo precisa ser dito o mais rápido possível e com palavras que todo mundo entenda. 

A opção pelo óbvio reduziu muito o que entendíamos por clareza na exposição de ideias. Raro alguém garimpar aquela palavra sonora, bendita, na elaboração de textos de leitura diária e obrigatória. De vez em quando, tropeçamos em cacos, estilhaços dos filões de belezas soterradas. Alguém grita: "Eureka!". E navegamos pela Grécia Antiga, nas ondas ancestrais da filosofia. É bem verdade que alguns engraçadinhos, envergonhados de tal conhecimento, gritam: "Corega!". Sim, muitas vezes nos nivelamos por baixo para fazer parte do bando. 

Enquanto eu crescia, gostava de ouvir os antigos da família. Eles não estavam contaminado pelo vocabulário da hora. Uma das minhas avós dizia a palavra "alhures" com a maior naturalidade. Outra, soltava, aqui e acolá, um sonoro "quiçá". Nenhuma falava "lanche", nem "lancheira". Mas "merenda" e "merendeira". Rico era "nababo". E advogado, "rábula". Uma das minha avós falava portuliano como a maioria das avós da minha cidade. Achava simplesmente, quando criança, que elas eram apenas senhoras de um jeito muito próprio de se fazer entender pelos respectivos clãs. 

Avós também escreviam com grafia de outras épocas: "ella", "pharmácia", "cousa". Já faz algum tempo que o falar e o escrever andam perdendo a identidade geracional. Avós, filhos, netos e bisnetos falam as mesmas gírias e abreviam palavras ao escrevê-las. As vogais estão desaparecendo. Vejam:  "pq", "qd".  "Beijo" no singular é "bj". No plural, "bjs". O abraço quase desaparece num mesquinho "ab". No plural, "abs". 

Algumas consoantes também desaparecem quando escrevemos. A verdade empobreceu e é apenas vdd. E não culpem o Twitter. Essa redução já vem acontecendo faz tempo. Além disso, qual a parcela da população é tuiteira? Essas reduções de grafia podem ser comprovadas em bilhetes, cartas manuscritas e em e-mails de gente que nunca tuíta, que nunca manda mensagens de textos via celulares. Digamos assim, é uma tendência. Textos inteiros começarão a sair assim com palavras sem vogais e com um mínimo de consoantes. Quem viver verá. 

Uma boa oportunidade de se ouvir palavras mágicas, plenas de significado é frequentar igrejas. Nas católicas tem as leituras de passagens bíblicas e a do  Evangelho do dia. Pena que ao comentá-lo o padre de plantão recorra ao vocabulário mais rasteiro. Padres e pastores demolem qualquer vestígios de beleza em seus sermões ao comentar epístolas, salmos, parábolas. Os Evangelistas certamente tornaram-se cegos e surdos nas Alturas. Mesmo iluminadas em vida pelo Espírito Santo e transformados em plena luz depois da morte, não encontrariam palavras que traduzissem a ira terrível e santa pelo que fizeram  de suas palavras com o passar dos séculos. 

Bem, tudo o que escrevi tem a ver com post aqui neste blog* com o título Sobre indignações cínicas e Serôdias, do amigo Aetano. Confesso que precisei recorrer ao dicionário. Serôdio do latim "serotinus" - que age tarde, tardio. Adjetivo. 1. Que vem no fim da estação própria. 2. Que aparece ou acontece fora do tempo considerado próprio. 3. (Figurado) Que já se sabe há muito tempo, equivalente a antigo, velho. 

Não sei se a formação em Direito de Aetano é a causa dele nos brindar com tais pérolas. Pode ser o tipo de leituras que faz. Só sei que fico feliz quando preciso recorrer ao dicionário. Nem tudo está perdido. Há ainda pessoas neste mundo, dessas perto de nós,  que não se contentam com o linguajar da hora. Que usam natural e devidamente palavras cheias de conteúdo, ainda não desgastadas. Palavras que reluzem feito jóias raras, quando resgatadas da obscuridade ou de nichos nem sempre acessados. E nos fazem lembrar de chuvas temporãs e chuvas serôdias e o conteúdo místico que as envolvem desde o cerne. 



Clara Favilla
Mineira de Ouro Fino, mora em Brasília. 
Mãe de Isabel Favilla, flautista e fagotista barroca. 
Escreve por ofício e destino


8 de mai de 2013

Norberto Bobbio: democracia liberal e democracia totalitária




Pensando no projeto hegemônico que pretende controlar a imprensa, manietar o Ministério Público, submeter o Supremo e sufocar a oposição, eu lembrei dessa pequena passagem de um texto de Bobbio:   




O que distingue os regimes de democracia ocidental dos de democracia chamada totalitária não é o fato de uns estarem fundados sobre o dissenso e outros sobre o consenso, mas sim que nos primeiros existe um consenso, o qual, contentando-se em ser o consenso dos mais ou da maior parte, baseado nas regras do jogo, admite o dissenso dos menos ou da minoria, enquanto nos segundos há um consenso que não admite o dissenso porque é ou pretende ser o consenso de todos. Como diz muito bem Alberoni, os regimes da democracia totalitária, em vez de deixarem àqueles que a pensam diferentemente o direito de oposição, ou, em outras palavras, o direito de dissenso, querem reeducá-los de tal modo que se tornem, por amor ou pela força, consencientes.




Bobbio, Norberto. "Existe consenso e consenso". In: "As ideologias e o poder em crise". Tradução de João Ferreira -- Brasília: Editora Universidade de Brasília, 4a edição, 1999, p. 48.


6 de mai de 2013

Aforismos





Se você enxerga toda e qualquer questão como uma disputa entre o azul-tucano e o encarnado-petista, recomendo um exame de vista. 



Triste Brasil, reduzido a um imenso pastoril.



1 de mai de 2013

Aforismos





Que autoestima mais bem assentada,
essa que se sustenta sobre o nada!



Numa sociedade onde predomina a noção cordial dos direitos,
cada um quer um privilégio pra chamar de seu.



Homens e mulheres tornam-se cada vez mais parecidos e,
talvez por isso mesmo, cada vez mais reciprocamente irreconhecíveis. 



A celebridade é a nova autoridade.




27 de abr de 2013

Entrevista de Frans de Waal à Folha



Sempre defendi que um homem religioso pode ser um tolerante ou um indiferente, enquanto um ateu pode ser um militante intolerante do ateísmo. Sempre defendi que é possível tiranizar o outro em nome de Deus, tanto quanto é possível ser tirano em nome de princípios racionais e ateus. Por isso é com alegria que reproduzo a entrevista que Frans de Waal, um renomado ateu, concedeu à Folha de hoje (27/04/2013, Caderno "Ciência + Saúde"). Nela, ele afirma: "O inimigo não é a religião, é o dogmatismo". Confiram:

Religião não é fonte da moral, mas eliminá-la é temerário

PRIMATÓLOGO FRANS DE WAAL CRITICA MESSIANISMO ATEU EM LIVRO

REINALDO JOSÉ LOPES COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Para alguém que tem se especializado em demonstrar que o ser humano e os demais primatas têm um lado pacífico e bondoso por natureza, Frans de Waal conseguiu comprar briga com muita gente diferente.
Autor de "The Bonobo and the Atheist" ("O Bonobo e o Ateu"), que acaba de sair nos Estados Unidos, o primatólogo holandês-americano provavelmente não agradará muitos religiosos ao argumentar que ninguém precisa de Deus para ser bom.
Seu modelo de virtude? O bonobo (Pan paniscus), um primo-irmão dos chimpanzés conhecido pela capacidade de empatia com membros de sua espécie e de outras, pela sociedade tolerante, sem "guerras", e pelo uso do sexo para resolver conflitos.
Com base nos estudos com grandes macacos e outros mamíferos sociais, como cetáceos e elefantes, De Waal diz que a moralidade não surgiu por meio de argumentos racionais nem graças a leis ditadas por Deus, mas deriva de emoções que compartilhamos com essas espécies.
Bonobos e chimpanzés sabem que é seu dever cuidar de um amigo doente, retribuir um favor ou pedir desculpas.
Por outro lado, o livro é uma crítica aos Novos Ateus, grupo capitaneado pelo britânico Richard Dawkins que tem dado novo impulso ao conflito entre ateísmo e religião desde a última década.
"Eu não consigo entender por que um ateu deveria agir de modo messiânico como eles", diz De Waal, ateu e ex-católico. "O inimigo não é a religião, é o dogmatismo."




Folha - Quem está mais bravo com o sr. depois da publicação do livro?
Frans de Waal - Bem, no caso dos ateus, recebi muitas mensagens de gente que me apoia. É claro que, em certo sentido, estou do lado deles, tanto por também ser ateu quanto por acreditar que a fonte da moralidade não é a religião. O que eu digo no livro é que os Novos Ateus estavam gritando alto demais e que precisam se acalmar um pouco, porque a estratégia deles não é a melhor.

Em seu livro, o sr. faz uma referência ao romance "O Senhor das Moscas", de William Golding, história na qual garotos perdidos numa ilha reinventam vários aspectos da sociedade, inclusive a religião. Mas a religião que eles criam é brutal, com sacrifícios humanos. O sr. acha que a religião nasceu brutal e foi ficando mais humanizada?


Acho que não. Quando olhamos para as sociedades tradicionais de pequena escala, que foram a regra na pré-história, vemos que esse tipo de coisa não está presente entre elas.
É claro que elas tinham crenças sobre o mundo sobrenatural e podiam sacrificar um ou outro animal aos deuses, mas, no
geral, eram relativamente benignas.
É só quando as sociedades aumentam de escala que elas começam a se tornar mais agressivas e dogmáticas.

Quando se enfatiza o lado pacífico e ético das sociedades de primatas não humanos e do próprio homem, não há um perigo de
fechar os olhos para a faceta violenta dela?

Concordo que, nos meus livros mais recentes, essa ênfase existe. Por outro lado, meu primeiro livro, "Chimpanzee Politics" ["Política Chimpanzé", sem tradução no Brasil], era totalmente focado na violência, na manipulação maquiavélica e em outros aspectos pouco agradáveis da sociedade primata. Mas a questão é que surgiu uma ênfase exagerada nesses aspectos negativos, e as pessoas não estavam ouvindo o outro lado da história.

O sr. acha que encontrar um chimpanzé ou bonobo cara a cara pela primeira vez pode funcionar como uma experiência religiosa ou espiritual?


Eu não chamaria de experiência religiosa (risos), mas é uma experiência que muda a sua percepção da vida.
No livro, conto como a chegada dos primeiros grandes macacos vivos à Europa no final do século 19 despertou reações fortes, em vários casos deixando o público revoltado porque havia essa ideia confortável da separação entre seres humanos e animais. Por outro lado, gente como Darwin viu aquela experiência como algo positivo.

E o sr. sente que essa aversão aos grandes macacos diminuiu hoje?


Sim, e isso é muito interessante. Eu costumo dar palestras em reuniões de sociedades zoológicas de grandes cidades aqui nos Estados Unidos. Tenho certeza de que muitas pessoas ali são religiosas. E esse público é fascinado pelos paralelos e pelas semelhanças entre seres humanos e grandes macacos ou outros animais.
Isso não significa que queiram saber mais sobre a teoria da evolução, mas elas acolhem a conexão entre pessoas e animais.

Na sua nova obra, o sr. defende a ideia de que não se pode simplesmente eliminar a religião da vida humana sem colocar outra coisa no lugar dela. Que outra coisa seria essa?


É preciso reconhecer que os seres humanos têm forte tendência a acreditar em entidades sobrenaturais e a seguir líderes. E o que nós vimos, em especial no caso do comunismo, no qual houve um esforço para eliminar a religião, é que essa tendência acaba sendo preenchida por outro tipo de fé, que se torna tão dogmática quanto a fé religiosa.
Então, o temor que eu tenho é que, se a religião for eliminada, ela seja substituída por algo muito pior. Acho preferível que as religiões sejam adaptadas à sociedade moderna.

Outro argumento do livro é que o menos importante nas religiões é a base factual delas. O mais relevante seria o papel social e emocional dos rituais. Para quem é religioso e se importa com a verdade do que acredita, não é uma visão que pode soar como condescendente ou desonesta?


Pode ser que, para quem é religioso, essa visão trivialize suas crenças. Mas, como biólogo, quando vejo alguma coisa que parece existir em quase todos os grupos de uma espécie, a minha pergunta é: para que serve? Que benefício as pessoas obtêm com isso? Não tenho a intenção de insultar ninguém com esse enfoque.


THE BONOBO AND THE ATHEIST
EDITORA W.W. Norton & Company
PREÇO R$ 29,35 (e-book na Amazon.com), 313 págs.


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