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27 de abr de 2013

Entrevista de Frans de Waal à Folha



Sempre defendi que um homem religioso pode ser um tolerante ou um indiferente, enquanto um ateu pode ser um militante intolerante do ateísmo. Sempre defendi que é possível tiranizar o outro em nome de Deus, tanto quanto é possível ser tirano em nome de princípios racionais e ateus. Por isso é com alegria que reproduzo a entrevista que Frans de Waal, um renomado ateu, concedeu à Folha de hoje (27/04/2013, Caderno "Ciência + Saúde"). Nela, ele afirma: "O inimigo não é a religião, é o dogmatismo". Confiram:

Religião não é fonte da moral, mas eliminá-la é temerário

PRIMATÓLOGO FRANS DE WAAL CRITICA MESSIANISMO ATEU EM LIVRO

REINALDO JOSÉ LOPES COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Para alguém que tem se especializado em demonstrar que o ser humano e os demais primatas têm um lado pacífico e bondoso por natureza, Frans de Waal conseguiu comprar briga com muita gente diferente.
Autor de "The Bonobo and the Atheist" ("O Bonobo e o Ateu"), que acaba de sair nos Estados Unidos, o primatólogo holandês-americano provavelmente não agradará muitos religiosos ao argumentar que ninguém precisa de Deus para ser bom.
Seu modelo de virtude? O bonobo (Pan paniscus), um primo-irmão dos chimpanzés conhecido pela capacidade de empatia com membros de sua espécie e de outras, pela sociedade tolerante, sem "guerras", e pelo uso do sexo para resolver conflitos.
Com base nos estudos com grandes macacos e outros mamíferos sociais, como cetáceos e elefantes, De Waal diz que a moralidade não surgiu por meio de argumentos racionais nem graças a leis ditadas por Deus, mas deriva de emoções que compartilhamos com essas espécies.
Bonobos e chimpanzés sabem que é seu dever cuidar de um amigo doente, retribuir um favor ou pedir desculpas.
Por outro lado, o livro é uma crítica aos Novos Ateus, grupo capitaneado pelo britânico Richard Dawkins que tem dado novo impulso ao conflito entre ateísmo e religião desde a última década.
"Eu não consigo entender por que um ateu deveria agir de modo messiânico como eles", diz De Waal, ateu e ex-católico. "O inimigo não é a religião, é o dogmatismo."




Folha - Quem está mais bravo com o sr. depois da publicação do livro?
Frans de Waal - Bem, no caso dos ateus, recebi muitas mensagens de gente que me apoia. É claro que, em certo sentido, estou do lado deles, tanto por também ser ateu quanto por acreditar que a fonte da moralidade não é a religião. O que eu digo no livro é que os Novos Ateus estavam gritando alto demais e que precisam se acalmar um pouco, porque a estratégia deles não é a melhor.

Em seu livro, o sr. faz uma referência ao romance "O Senhor das Moscas", de William Golding, história na qual garotos perdidos numa ilha reinventam vários aspectos da sociedade, inclusive a religião. Mas a religião que eles criam é brutal, com sacrifícios humanos. O sr. acha que a religião nasceu brutal e foi ficando mais humanizada?


Acho que não. Quando olhamos para as sociedades tradicionais de pequena escala, que foram a regra na pré-história, vemos que esse tipo de coisa não está presente entre elas.
É claro que elas tinham crenças sobre o mundo sobrenatural e podiam sacrificar um ou outro animal aos deuses, mas, no
geral, eram relativamente benignas.
É só quando as sociedades aumentam de escala que elas começam a se tornar mais agressivas e dogmáticas.

Quando se enfatiza o lado pacífico e ético das sociedades de primatas não humanos e do próprio homem, não há um perigo de
fechar os olhos para a faceta violenta dela?

Concordo que, nos meus livros mais recentes, essa ênfase existe. Por outro lado, meu primeiro livro, "Chimpanzee Politics" ["Política Chimpanzé", sem tradução no Brasil], era totalmente focado na violência, na manipulação maquiavélica e em outros aspectos pouco agradáveis da sociedade primata. Mas a questão é que surgiu uma ênfase exagerada nesses aspectos negativos, e as pessoas não estavam ouvindo o outro lado da história.

O sr. acha que encontrar um chimpanzé ou bonobo cara a cara pela primeira vez pode funcionar como uma experiência religiosa ou espiritual?


Eu não chamaria de experiência religiosa (risos), mas é uma experiência que muda a sua percepção da vida.
No livro, conto como a chegada dos primeiros grandes macacos vivos à Europa no final do século 19 despertou reações fortes, em vários casos deixando o público revoltado porque havia essa ideia confortável da separação entre seres humanos e animais. Por outro lado, gente como Darwin viu aquela experiência como algo positivo.

E o sr. sente que essa aversão aos grandes macacos diminuiu hoje?


Sim, e isso é muito interessante. Eu costumo dar palestras em reuniões de sociedades zoológicas de grandes cidades aqui nos Estados Unidos. Tenho certeza de que muitas pessoas ali são religiosas. E esse público é fascinado pelos paralelos e pelas semelhanças entre seres humanos e grandes macacos ou outros animais.
Isso não significa que queiram saber mais sobre a teoria da evolução, mas elas acolhem a conexão entre pessoas e animais.

Na sua nova obra, o sr. defende a ideia de que não se pode simplesmente eliminar a religião da vida humana sem colocar outra coisa no lugar dela. Que outra coisa seria essa?


É preciso reconhecer que os seres humanos têm forte tendência a acreditar em entidades sobrenaturais e a seguir líderes. E o que nós vimos, em especial no caso do comunismo, no qual houve um esforço para eliminar a religião, é que essa tendência acaba sendo preenchida por outro tipo de fé, que se torna tão dogmática quanto a fé religiosa.
Então, o temor que eu tenho é que, se a religião for eliminada, ela seja substituída por algo muito pior. Acho preferível que as religiões sejam adaptadas à sociedade moderna.

Outro argumento do livro é que o menos importante nas religiões é a base factual delas. O mais relevante seria o papel social e emocional dos rituais. Para quem é religioso e se importa com a verdade do que acredita, não é uma visão que pode soar como condescendente ou desonesta?


Pode ser que, para quem é religioso, essa visão trivialize suas crenças. Mas, como biólogo, quando vejo alguma coisa que parece existir em quase todos os grupos de uma espécie, a minha pergunta é: para que serve? Que benefício as pessoas obtêm com isso? Não tenho a intenção de insultar ninguém com esse enfoque.


THE BONOBO AND THE ATHEIST
EDITORA W.W. Norton & Company
PREÇO R$ 29,35 (e-book na Amazon.com), 313 págs.


***

22 de abr de 2013

Carta de Otto Lara Resende a Fernando Sabino




Nessa carta a Fernando Sabino -- que considero extraordinária --, Otto faz alusão à "questão de Minas", que vem a ser "as reações, por vezes passionais, provocadas por um artigo que Vinicius de Moraes publicou em 'O Jornal', do Rio de Janeiro, em 5 de novembro de 1944". O título do artigo: "Carta contra os escritores mineiros (Por muito amar)". Nele, Vinicius questionava: "Por que só olhais o mundo das janelas de vossas casas ou dos vossos escritórios?". "Por que economizais e para quê: para comprar o vosso túmulo?".



Belo Horizonte, 23 de dezembro de 1944


Nesta chatíssima questão de Minas*, você me coloca como sujeito tipicamente sem caráter, que não quer perder os partidos, que quer navegar nas duas margens. Você me pergunta por que escrevi ao Tristão**. Porque achei que devia e estou certo que devia mesmo, por nada mais. Estou burro para dizer o que quero, a mão está dura, mas continuo. Eu não vejo nenhuma atitude de subserviência na carta. Você aí vê demais, porque você quer me ver como você me imagina: aquele farrapo de fraquezas e conciliações, aquela miséria bem procedida que não quer ofender... Coitado do Otto! Um sujeito de certo talento, mas perdido, sufocado, abafado, emaranhado naquela falta de caráter, incapaz de atitudes claras e corajosas, como nós! Vós, os heróis, sim, vós sois os heróis. Olhe: não concordo com o que você disse do Tristão, acho besta e com ar de menino embirrado que quer se mostrar livre das exigências paternas... Desculpe se não concordo uma vez com você, vou dar um jeitinho para nos arranjarmos, não quero ofendê-lo, perdão, mil perdões. Que coisa, meu Deus! Meus parabéns pela sua superação genial. Você que era assim, está agora assim. Muito bem! É uma conquista, um progresso = e o progresso é natural... Você agora é o homem das atitudes claríssimas, só se compreende a você, só aceita a você mesmo, você é a verdade, ide a vós os transviados: que maravilha! Belo caminho aberto à incompreensão, à intolerância, ao narcisismo de bazar chinês... Me desculpe, eu é que estou com minha falta de caráter, sujamente querendo aceitar todo mundo, compreender todo mundo, abrir a todo mundo meus braços onde todo mundo cabe. É minha mania de ser humano, de querer compreender antes de julgar... Certamente sou ótima carne para vossas ferozes guilhotinas do mundo novo que virá e que se levantará sobre o sangue dos fracos e dos conciliadores. Pode passar, com sua banda de tambores argentinos, ruflando piruetas e clarins: eu entro pra casa meio desapontado, chupando o dedo feito menino bobo, de lágrima presa e coração esmagado. Fico à espera da vossa Gestapo que vai libertar o mundo dos inúteis. Adeus.



*A nota que nesse ponto o livro apresenta foi adaptada e serviu-me como epígrafe. Agradeço ao amigo Douglas, que observou que o artigo do Vinicius é de 1944 e não 1994, como estava aqui escrito, por erro de digitação.

**Tristão de Athayde, pseudônimo de Alceu Amoroso Lima. [Uma das lacunas do livro (referência abaixo) é não trazer sequer uma nota breve sobre o conteúdo da carta de Otto a Tristão]. No entanto, Marcelo Coelho, na Folha, classificou as notas como boas. Discordo.




Carta e notas In: Resende, Otto Lara. "O rio é tão longe: cartas a Fernando Sabino". Introdução e notas de Humberto Werneck -- São Paulo: Companhia das Letras, 2011, pp. 22/24. 

20 de abr de 2013

O cacoete está de volta





Eu disse que a presteza da pena é útil; e é certo que, quanto menos tempo decorrer entre o delito e a pena, tanto mais os espíritos ficarão compenetrados da ideia de que não há crimes sem castigo; tanto mais se habituarão a considerar o crime como a causa da qual o castigo é o efeito necessário e inseparável. (Cesare Beccaria, "Dos delitos e das penas")





Em 1993, devido à repercussão do caso Daniela Perez, mais de um milhão de assinaturas foram colhidas para alterar a lei de crimes hediondos. Pretendia-se incluir na lei o crime de homicídio qualificado, delito do qual a referida atriz tinha sido vítima. 

Em 1994 a lei foi alterada, tornou-se mais severa, mas não se tem notícia de que tenha contribuído para a diminuição da sensação de insegurança e impunidade. Apesar dessa constatação, sempre que um crime provoca comoção nacional, achamos que a melhor resposta a dar é agravar a respectiva pena ou as condições de seu cumprimento. 

Pois bem, o cacoete está de volta. Legitimamente revoltados com um assassinato brutal cometido por um adolescente, passamos a pedir a redução da maioridade penal, na esperança de que, diante da ameaça de uma punição mais severa, a delinquência juvenil ceda. 

Não sou contra a diminuição da maioridade penal por princípio. Não acho o assunto indiscutível. Mas desconfio de quem pede a alteração da idade de responsabilidade criminal sem dizer nada sobre a adoção de mecanismos que tornem mais efetiva a aplicação da pretendida redução. Ora, sem instrumentos que a tornem mais eficaz, de que adianta implementar tal medida?

Quem quer agravar as leis sem se perguntar por que leis anteriormente agravadas não contribuíram para o aumento da sensação de segurança ou está sendo oportunista, ou está dando vazão a uma revolta inútil. Com efeito, há muito se sabe que a violência não se combate com o mero endurecimento das penas, mas sim com a certeza da punição. Essa trivialidade, anunciada séculos atrás por Cesare Beccaria, parece ainda não ter chegado aos nossos ouvidos. Ou seja, o futuro ainda nos espera... no século XVIII.






19 de abr de 2013

Chesterton: trecho do excelente "Ortodoxia"






É um bom exercício, em horas vazias e desagradáveis do dia, olhar para qualquer coisa, a caixa para carvão ou a estante de livros, e pensar que alguém poderia sentir-se feliz por ter tirado aquilo de um navio a pique numa ilha solitária. Mas é um exercício ainda melhor lembrar-se de como todas as coisas passaram por esse salvamento por um triz: tudo foi salvo de um naufrágio. Todos os homens passaram por uma horrível aventura: como criança abortada, como um bebê que nunca viu a luz do dia. Na minha infância falava-se muito de limitados ou arruinados gênios: e era muito comum classificar alguém como um "Poderia-Ter-Sido". Para mim há um fato mais concreto e assustador: qualquer transeunte que vai pela rua é um "Poderia-Não-Ter-Sido".







Chesterton, Gilbert K. "Ortodoxia". Traduzido por Almiro Pissetta -- São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 106. 

16 de abr de 2013

Das coisas do passado que chegam com todos os seus atrasos





Quem
para receber alguém
não tem límpido coração
sempre será mau anfitrião






13 de abr de 2013

Norberto Bobbio: trecho do artigo "A lição da história"




[...] Quanto a pessimismo e derrotismo, pessimista é aquele que teme, e derrotista, aquele que espera o pior. Não é possível imaginar dois comportamentos mais antitéticos. O pessimista teme o pior exatamente por desejar ardentemente o melhor. A bandeira do derrotista é "quanto pior, melhor". O pessimismo constata que as coisas vão mal e fica profundamente perturbado com isso; o derrotista constata que as coisas vão mal e fica alegre com isso. O primeiro tem medo porque espera; o segundo não tem medo porque já perdeu toda a esperança e porque desespera. [...].





In: Bobbio, Norberto. "As ideologias e poder em crise". Tradução de João Ferreira -- Brasília: Editora Universidade de Brasília, 4a edição, 1999, p. 182.

11 de abr de 2013

Entrevista com o filósofo e poeta Antonio Cicero




É uma honra!

Filósofo formado pela Universidade de Londres e pós-graduado nos EUA. Poeta presente na antologia "Os cem melhores poemas brasileiros do século [XX]". Letrista (tem parcerias com Waly, Marina, Lulu, Calcanhoto, João Bosco, entre outras). Candidato à Academia Brasileira de Letras, Antonio Cicero, generosamente, concedeu-me a entrevista que abre este blog.

Numa conversa que teve início no ano passado e que foi diversas vezes, e por diversos motivos -- todos de minha responsabilidade --, interrompida, Cicero critica a noção de "fundamentalismo ateu", fala de liberdade, Nietzsche, projetos pessoais e afirma que "a honestidade do pensador se manifesta na sua clareza". Confiram:


AETANO - No jornal Folha de São Paulo, Ives Gandra da Silva Martins (artigo de 24/11/11), Daniel Sottomaior (artigo de 8/12/11), Hélio Schwartsman (coluna de 10/12/11) e Contardo Calligaris (coluna de 15/12/11) travaram um debate sobre “fundamentalismo”. Sottomaior e Schwartsman - em abordagens diferentes - entendem que não há “fundamentalismo ateu”. Martins e Calligaris - também a partir de abordagens distintas - entendem que sim. Qual a sua opinião acerca desse ponto específico do debate? Pra você, há ou não há "fundamentalismo ateu"?


CICERO - Se a palavra “fundamentalismo” for tomada no sentido originário, não há como não concordar com Daniel Sottomaior. Foram cristãos protestantes norte-americanos que, pretendendo que a Bíblia era absolutamente infalível e devia ser interpretada e obedecida literalmente, criaram esse vocábulo para denominar a si próprios.

Os fundamentalistas islâmicos pretendem algo análogo em relação ao Alcorão.

Os fundamentos dos fundamentalistas são sempre, portanto, textos que, tidos como sagrados, isto é, inquestionáveis, afirmam como absolutamente verdadeira a tese de que existe um ente antropomórfico, que chamam de “Deus”. Este é tido como a origem e o dono de tudo o que é dado, isto é, do mundo, das coisas e dos seres humanos. Ademais, supõe-se que, intervindo no mundo e interagindo com os seres humanos – assim como um Senhor feudal ou escravista interage com seus servos ou escravos – tal Deus lhes revele a finalidade desta vida. Esta seria uma vida eterna após a morte, noutro mundo, composto de céu e de inferno. E supõe-se que esse Deus imponha regras e preceitos, que sancione através de punições e recompensas, neste ou naquele mundo.

Nada poderia estar mais distante dos ateus do que tais pressupostos. Não há, para eles, textos que tenham como sagrados, isto é, que não possam ser questionados; logo, eles se reservam o direito de não acreditar em nada que seja simplesmente afirmado, sem prova alguma, por textos. E lhes parece pertencer a uma época de servidão – digamos, à infância da humanidade – a crença, inteiramente desprovida de fundamento racional, em semelhantes Senhores absolutos e nos seus outros mundos. Logo, não há ateísmo fundamentalista.

Calligaris, porém, dá uma definição própria, idiossincrática, de “fundamentalista”. Para ele, trata-se de “quem leva a sério sua convicção e segue à risca os preceitos que derivam dela”. Sendo assim, quem não é fundamentalista, como ele mesmo, decide e escolhe “segundo as circunstâncias e não por princípio”. Ora, isso parece pressupor que não há nenhuma verdade; que há apenas conveniências. Nesse caso, se lhe for conveniente, o não-fundamentalista pode tornar-se fundamentalista. Isso me parece ser de um pragmatismo relativista inaceitável, pois autofágico.

Ao final do seu artigo, porém, ele faz um contraste mais interessante, “entre os que querem regrar a vida de todos segundo seus preceitos e os que preferem que, nos limites da lei, todos possam pensar e agir como quiserem”. Ora, a afirmação de que, nos limites da lei, todos devem poder pensar e agir como quiserem é um princípio. E é um princípio antifundamentalista. Com efeito, trata-se de um princípio antifundamentalista, ateu e racional, pois parte do reconhecimento de que não há nem textos sagrados, isto é, inquestionáveis, nem há razão nenhuma para supor que exista um Senhor que, sendo dono ou ditador do mundo e nos ditando o que devemos e o que não devemos fazer, recompense nossa eventual obediência e castigue nossa eventual desobediência.


AETANO - Segundo Benjamin Constant, “Montesquieu [...] em sua definição de liberdade, interpreta erroneamente todos os limites da autoridade política. Liberdade, diz ele, é o direito de fazer qualquer coisa que a lei permite. De fato, não existe liberdade alguma quando os cidadãos não podem fazer aquilo que a lei não proíbe. Mas tantas coisas podem ser tornadas ilegais que ainda não existiria liberdade". Continua Constant: "A máxima de M. de Montesquieu, de que os indivíduos têm o direito de fazer tudo o que a lei permite, é também um princípio de garantia. Significa que ninguém tem o direito de impedir alguém de fazer aquilo que a lei não proíbe. Todavia, ela não explica se a lei é ou não justificada ao proibir. Ora, a mim parece que é exatamente aí que a liberdade reside. Ela consiste tão-somente naquilo que os indivíduos têm o direito de fazer e a sociedade não tem o direito de impedir.”
(Constant, Benjamin. “Princípios de Política aplicáveis a todos os Governos”. Tradução de Joubert de Oliveira Brízida. - Rio de Janeiro: Topbooks, 2007, pp. 50/51)

Dito isto, um país que, a exemplo da França - vide este artigo no site da instituição “Human Rights Watch”: http://migre.me/7Vq8n -, utiliza-se de instrumentos legais para proibir manifestações religiosas não está perigosamente violando aquela liberdade de que trata Benjamin Constant? Não lhe parece que em alguns países está sendo adotada uma nova ortodoxia, ironicamente em nome dos princípios “ateus e racionais”?


CICERO - O artigo de que você fala se refere em primeiro lugar à proibição da burca. A questão é, portanto: o Estado tem o direito de proibir a burca? Trata-se de uma questão controversa, pois nela entram em jogo diferentes modalidades de liberdade e de repressão. O que é mais nocivo à liberdade individual: permitir ou proibir o uso da burca? Ninguém tem uma resposta definitiva, inquestionável, a esse respeito. Há argumentos a favor e argumentos contra a proibição da burca. A sociedade deve considerá-los e tomar uma decisão a partir da consideração deles. O artigo da Human Rights Watch que você cita tende a ser contra a proibição. Eu tendo a ser favorável a ela.
O que é a burca? A burca não é simplesmente o véu. Não penso que este deva ser proibido. A burca é uma vestimenta que cobre todo o corpo, inclusive os cabelos e o rosto, e tem uma tela, à altura dos olhos, através da qual se pode ver. A ideia é que nenhum homem, exceto seu marido, possa ver uma mulher honesta. Sendo assim, a mulher que adota a burca não é uma pessoa pública, mas apenas privada ou doméstica, isto é, pertencente exclusivamente ao seu lar. Ela é mais exclusivamente doméstica do que uma criança, já que esta pode mostrar seu rosto em público. Ora, semelhante restrição, a meu ver, equivale a uma espécie de cativeiro ou escravidão da mulher ao marido. Argumenta-se que há mulheres que desejam essa escravidão. Será de admirar que uma pessoa que tenha sido mantida, desde o nascimento, em estado de prisão e opressão – pela família em que nasceu, pela religião e pelo marido – morra de medo tanto da liberdade quanto dos castigos que a ameaçam, neste mundo e no outro, caso se insubordine? Penso que a servidão vitalícia não é tolerável no mundo moderno, nem mesmo quando voluntária.
Benjamin Constant, citado por você, diz que a liberdade “consiste tão-somente naquilo que os indivíduos têm o direito de fazer e a sociedade não tem o direito de impedir”. Veja bem: com razão, ele não fala simplesmente do Estado, mas da sociedade. O marido da mulher oprimida pela burca faz parte da sociedade. O que ele faz é errado porque ele não tem o direito de impedir outra pessoa – ainda que seja sua esposa – de ser livre em público. Logo a lei deve proibir o uso da burca.


AETANO - Em "O mundo desde o fim", vc diz: “[...] Já mostramos que o caráter absoluto da razão que, em última análise, consiste na atividade da negação negante, significa justamente a negação absoluta da possibilidade de que qualquer positividade seja absoluta. Se houvesse uma positividade absoluta, ela excluiria ou degradaria a realidade e a possibilidade de outras positividades, pois estaria, por assim dizer, no lugar delas. A negatividade do absoluto significa, ao contrário, que nenhuma positividade pode por princípio excluir ou degradar a realidade ou a possibilidade de outras positividades. Por isso, a exigência racional do reconhecimento do caráter negativo do absoluto é a exigência de uma garantia absoluta de abertura para que se manifestem todas as possibilidades positivas, todas as conjecturas, todos os projetos, todas as obras. [...]”
(Cicero, Antonio. "O mundo desde o fim - sobre o conceito de modernidade". Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2009, pp. 95/96)

Ora, segundo aquele artigo da Human Rights Watch, assim como é verdade que muitas mulheres muçulmanas são forçadas a usar a burca, também é verdade que muitas destas mulheres decidiram de modo “livre e informado” usar tal vestimenta. Sendo assim, de que modo você concilia ideias tão tolerantes como as transcritas acima com a defesa da proibição do uso da burca?


CICERO - A burca faz parte de um sistema cultural. Assim, entre os talibãs, que estão entre seus principais defensores, por exemplo, as mulheres não são apenas obrigadas a usar a burca, mas são também destituídas de autorização para trabalhar fora, proibidas de se escolarizarem depois de oito anos de idade e, até então, obrigadas a não estudar senão o Alcorão; caso violem as leis talibãs, estão sujeitas a serem publicamente açoitadas.

Creio haver basicamente cinco tipos de mulheres que usam a burca.

O primeiro é o das mulheres que são simplesmente obrigadas a fazê-lo pelas suas famílias.

O segundo é o das mulheres que acham natural serem submetidas a semelhante sistema cultural. Foram convencidas disso exatamente por ignorância: por nada terem aprendido, fora técnicas domésticas e preconceitos de origem religiosa e cultural. Não conhecendo alternativas, é por ausência de liberdade, não por liberdade, que elas querem usar a burca.

O terceiro, que em grande parte coincide com o segundo, é o das mulheres que optam pela escravidão ou pela eterna minoridade, de modo a escapar das responsabilidades que advêm da liberdade.

O quarto é o das mulheres que, jamais tendo sido obrigadas a usar a burca, decidem fazê-lo para afirmar sua identidade cultural e religiosa islâmica. Isso ocorre principalmente entre mulheres muçulmanas que vivem no Ocidente, inclusive entre mulheres que, não tendo origem muçulmana, converteram-se ao islã. A maior parte das fundamentalistas é composta de tais mulheres.

O quinto é o das mulheres que usam a burca idiossincraticamente, sem terem nenhum compromisso cultural com o que ela representa, por mero capricho ou moda.

Veja bem: penso ser evidente que a imensa maioria das mulheres que usam a burca pertence ao primeiro, ao segundo e ao terceiro grupo. São as mulheres que por diferentes razões são, voluntária ou involuntariamente, escravizadas pelos seus pais, irmãos e/ou maridos.

A função da proibição da burca é fazer com que, por motivos práticos, (1) os maridos dessas mulheres deixem de impor seu uso a elas; (2) essas mulheres mesmas deixem de considerar natural o uso da burca, e, consequentemente, sejam capazes de abandoná-la, (3) fazer com que cada uma delas assuma uma personalidade pública, inclusive as responsabilidades e liberdades que fazem parte de tal personalidade.

É verdade que a proibição significa também impedir o exercício da liberdade de usar a burca pelas mulheres do quarto e do quinto grupo. Entretanto, não só elas são muito poucas, em comparação com as dos primeiros grupos, como, no que toca às do quarto grupo, há algo de espúrio em sua adoção da burca. Por que? Porque, segundo a formulação usada por você, trata-se de mulheres que decidiram fazê-lo “de modo livre e informado”. Nesse caso, elas devem saber que a burca faz parte do sistema cultural que descrevi acima: e que, segundo esse sistema, as mulheres não devem ser livres nem informadas. Se quisessem realmente afirmar a identidade cultural e religiosa islâmica, deveriam também, abandonando seus empregos, já que são mulheres, encerrarem-se no lar, deveriam se restringir a ler o Alcorão, deveriam apoiar a adoção da “lei islâmica” ou charia (que despreza os direitos humanos) e deveriam renunciar a qualquer vida – ou pronunciamento – público.

Quanto ao quinto grupo, que usa a burca por mero capricho ou moda, penso que a perda de liberdade que sofrem ao ter que abdicar do seu uso não é nem de longe comparável com a escravidão sofrida pelas mulheres que são obrigadas a usar a burca.

Quanto ao trecho que você cita de O mundo desde o fim, sublinho o seguinte: o caráter absoluto da razão que, em última análise, consiste na atividade da negação negante, significa justamente a negação absoluta da possibilidade de que qualquer positividade seja absoluta. Ora, o integralismo islâmico, que está por trás da imposição da burca, pretende que o Alcorão seja precisamente a expressão da positividade absoluta que o teria ditado a Maomé. É por isso que ele é capaz de se opor aos direitos humanos, cujo reconhecimento é, em última análise, consequência do reconhecimento da impossibilidade de positividades absolutas.


AETANO - Em "O mundo desde o fim", o "ser enquanto tal" é uma subjetividade supra-individual dessubstancializada ativa ("uma efetividade absolutamente destituída de positividade"). Tal subjetividade é a essência do ser, a essência do agora, a minha essência e possui todos os atributos de Deus (absoluto, essencial, negativo, universal, necessário, abstrato, subjetivo, atemporal, puro, infinito etc). Sendo assim, o que você diria a um deísta que tentasse se apropriar das conclusões expostas no livro mencionado, para afirmar que Deus não existe, mas É; que Deus é nada, porque não tem nada de positivo ou substancial, mas nem por isso é estéril, vazio ou nulo, já que, ao contrário - como se pode ver em "O mundo desde o fim", ele diria - é um Deus "prenhe de consequências"?


CICERO - Creio que, para responder, tenho que voltar a algumas proposições fundamentais de O mundo desde o fim.

É uma verdade absoluta que eu – seja quem eu for – sou, porque, seja quem eu for, não sou capaz de pensar que eu não seja sem que, no mesmo instante em que o pense, eu seja. Não sou capaz de pensar que eu não seja sem, no mesmo instante, ser.

Quanto a todas as demais coisas, sou, sem me contradizer, capaz de pensar que não sejam. Assim, sou perfeitamente capaz de pensar que Deus não seja. Logo, o ser de Deus não é, de maneira nenhuma, uma verdade absoluta.

Tudo o que sei com certeza absoluta sobre mim, além do fato de que sou, é que sou capaz de pensar que todas as coisas, exceto eu mesmo, não sejam. Tudo o que sei com certeza absoluta de mim é, portanto, que sou ao menos pensamento pensante ou negação negante.

Em O mundo desde o fim defino a palavra existir tendo em vista o sentido sugerido pela palavra latina exsistere, sito é, ex-sistere, isto é, estar fora, estar separado. “Separado de que?”, pergunto. E respondo: “Separado, em primeiro lugar, de mim – e, nesse sentido, o que existe é justamente o que não sou – e separado, em segundo lugar, de todas as outras coisas” (p.46, ed. portuguesa). Isso quer dizer que, se Deus não existisse, mas fosse, então eu – enquanto pensamento pensante ou negação negante – e Ele seríamos a mesma coisa. Mas, nesse caso, que sentido teria falar de “Deus” como se fosse outra coisa, outro ser, outra pessoa? Nenhum. Portanto, não teria sentido falar de Deus, ou dizer que Deus é.

Além disso, ao contrário do que você afirmou na sua pergunta, os atributos que enumerou (absoluto, essencial, negativo, universal, necessário, abstrato, subjetivo, atemporal, puro, infinito) não esgotam os atributos que Deus deveria ter. Com efeito, supõe-se que Deus seria também, por exemplo, onisciente e onipotente, atributos que eu só atribuiria a mim se fosse louco...


AETANO - Mas o deísta da pergunta anterior, baseado em "O mundo desde o fim", poderia argumentar dizendo que se deve ter cuidado com a falácia de equivocação. Ou seja, se o "mim" da sua resposta anterior - diria ele - for o Antonio Cicero, a pessoa particular, substancializada, a pessoa que se dá "como presença e objeto", a pessoa que existe, é verdade que ele não é onisciente nem onipotente. Todavia, ponderaria o deísta, se o o "mim" for o "ser enquanto tal", o "pensamento pensante", a "negação negante", a "egoidade", como não considerá-lo onipresente, onisciente e onipotente? ONIPRESENTE porque "quando há ser, é necessariamente agora, e quando é agora, necessariamente há ser". ONISCIENTE porque é o "absoluto epistemológico", é o "inquestionável", é a única certeza metafísica, já que "todas as demais 'certezas' são meramente morais ou relativas"; é onisciente, enfim, porque é o único que É e que sabe que é; e o único que é e sabe que nada mais é. Por fim, é ONIPOTENTE porque: é absoluto, enquanto tudo o mais é relativo; é essencial, enquanto tudo o mais é acidental; é negativo, enquanto tudo o mais é positivo; é universal, enquanto tudo o mais é particular; é necessário, enquanto tudo o mais é contingente; é abstrato, enquanto tudo o mais é concreto; é atemporal, enquanto tudo o mais é temporal; é puro, enquanto tudo o mais é empírico; é infinito, enquanto tudo o mais é finito etc. Então, o que você diria ao deísta hipotético?


CICERO - Não sou, enquanto pensamento pensante, onipresente. “Presente”, de prae-s-ens é o que está diante. O presente é o que está ante mim. Mas nem tudo está ante mim. Há também o ausente, o que existe – ex-siste – mas não se encontra ante mim. E eu mesmo sou antes o oniausente do que o onipresente, pois, enquanto pensamento pensante, jamais estou presente a mim: jamais estou diante de mim. As outras coisas – inclusive o meu corpo – é que podem estar presentes a mim: ou ausentes. Assim, nem estou presente a todas as coisas, nem todas as coisas estão presentes a mim.

“Onisciente” é, segundo a definição corrente, quem tem saber absoluto, pleno; quem tem conhecimento infinito sobre todas as coisas. A onisciência de Deus significa que nada do que é, foi ou será é desconhecido de Deus. Sendo assim, eu, que nada sei com certeza exceto que, enquanto penso, sou, sou praticamente o oposto do onisciente. O fato de que “todas as ‘certezas’ são meramente morais ou relativas” para mim indica a limitação do meu conhecimento, e jamais poderia ser sinal de minha onisciência.

Quanto a “onipotência”, que significa poder total, nem se fala. Se definirmos o poder como, por exemplo, a capacidade de produzir mudança em outra coisa, ele será a capacidade de produzir mudança em coisas que existem. A onipotência será, então, a capacidade de produzir mudança em todas as coisas reais ou possíveis. Não entendo como isso poderia ser atribuído a mim, enquanto pensamento pensante.

O fato de que sou epistemologicamente absoluto significa que tenho certeza absoluta de ser. Em oposição a isso, a existência de todas as demais coisas é apenas contingente, acidental, relativa etc. para mim. Uma coisa que existe é uma presença, uma positividade, uma particularidade, algo determinado, logo (uma vez que determinatio negatio est) algo que não é nenhuma das outras coisas. Nesse sentido, ela é relativa a essas outras coisas. Eu, enquanto pensamento pensante, não sou relativo, isto é, sou absoluto, apenas no sentido de que não existo; não tenho presença; não tenho particularidade ou determinidade que se possa opor a outras determinidades. Ora, isso não me confere poder nenhum.


AETANO - "O mundo desde o fim" e "Finalidades sem fim". Pode-se dizer que nestes dois livros você conclui: a modernidade não é superável e a vanguarda, como "plena realização da modernidade", acabou. Pergunto: diante dessa "sensação geral de que tudo já foi feito", há razões para não se angustiar?


CICERO - Não participo dessa “sensação geral de que tudo já foi feito”. É verdade que o fim das vanguardas representa a plena realização da modernidade na arte. O que essa plena realização significa, porém, é que não há mais caminhos fechados, e não que todos os caminhos já tenham sido trilhados. Longe disso: as possibilidades que as vanguardas abriram são infinitas.

Por outro lado, fora do campo da arte e do pensamento, nos campos da ética, do direito e da política, ainda há muito a ser feito para que a modernidade se realize plenamente. Basta ler os discursos dos candidatos republicanos à presidência dos Estados Unidos para ver que os inimigos da modernidade estão mais histéricos do que nunca. E que dizer do fundamentalismo evangélico ou islâmico?

A modernidade é a época que reconhece que

(1) nenhuma proposição e nenhuma doutrina positiva – seja religiosa, seja secular – pode ser absolutamente verdadeira e

(2) exatamente a proposição negativa (1) é absolutamente verdadeira.

Concomitantemente a esse reconhecimento e em interação com ele, a modernidade é também, para usar a expressão de Kant, a época da crítica. "Nossa época", diz ele, na "Crítica da Razão Pura", "é propriamente a época da crítica, à qual tudo deve submeter-se. A religião, através da sua santidade, e a legislação, através da sua majestade, querem em comum subtrair-se a ela. Mas então suscitam uma justa suspeição contra si, e não podem aspirar ao respeito sincero que a razão só concede àquilo que consegue suportar a sua investigação livre e pública".

Observo que “crítica”, do grego “kritiké”, é a capacidade de discernir, distinguir, separar. Trata-se da manifestação primordial da razão.

É verdade que, além de ser crítica, a razão é também usada instrumentalmente, como um instrumento para a construção de sistemas de pensamento: de teorias científicas, tecnologias, obras de arte, conceitos filosóficos, concepções teológicas, ideologias (modernas e antimodernas) e até de religiões. Assim, até quem tenta solapar a própria razão é obrigado a se servir dela, na medida do possível.

Contudo, na época da crítica, essas mesmas construções da razão instrumental, como tudo o que há, também estão sujeitas a serem criticadas pela própria razão.

Ao ocupar um lugar tão central no mundo moderno, a razão desalojou do centro todos os sistemas de pensamento que, nos mundos pré-modernos, nele se instalavam. No mundo moderno, como diz Marx, todas as relações fixas e esclerosadas, com seu cortejo de veneráveis preconceitos e opiniões, são dissolvidas, e todas as recentemente constituídas ficam velhas antes de ossificarem. Tudo o que é fixo e firme se evapora, tudo o que é sagrado se profana, e os homens são finalmente obrigados a contemplarem suas relações recíprocas com olhos sóbrios.

Não admira que todos aqueles que abraçavam – e ainda abraçam – os sistemas de pensamento pré-modernos tenham ficado indignados contra a razão e contra a modernidade. De fato, a ofensiva anti-racional é incessante, e usa de todos os meios que consegue para tentar desmoralizar a razão. A longo prazo, porém, não é possível, num mundo globalizado, exterminar o vírus benéfico da crítica, de modo que não é possível regressar por muito tempo a um mundo pré-moderno ou à pretensão de afirmar a verdade absoluta de proposições ou doutrinas positivas.

Faz parte da modernidade a explicitação e a defesa dos direitos humanos. Uma vez que se reconhece não haver nenhuma proposição ou doutrina positiva absolutamente verdadeira, então cada qual tem o direito de ter as convicções que bem entender, de exprimi-las e de agir de acordo com elas, desde que, ao fazê-lo, não viole direito igual de outrem.

Pois bem, a maximização da liberdade de todos os indivíduos representa também a maximização da liberdade de produção e expressão cultural, inclusive da liberdade de manifestações culturais alternativas, que haviam sido tolhidas pela aceitação pacífica da pretensão da cultura tradicional a ser a única legítima.


AETANO - Em "O mundo desde o fim", vc elabora a sua epistemologia e a sua ética. Em "Finalidades sem fim", a sua estética. O filósofo Antonio Cicero está realizado?


CICERO - De maneira nenhuma, Aetano. Tenho vontade ainda de dizer muita coisa, tanto sobre epistemologia quanto sobre ética, estética etc. Assim, no mês que vem, estarei lançando um livrinho chamado “Poesia e filosofia”, em que retomo algumas ideias que já se encontram no ensaio homônimo do livro Finalidades em fim, desenvolvo-as e proponho ainda outras. No ano que vem, devo lançar outro livro de ensaios, em que falo de temas tão diversos como o niilismo, o conceito de civilização, a contracultura dos anos 60 e 70, Hölderlin, Fernando Pessoa, um poema de Augusto de Campos, a razão instrumental em oposição à razão crítica, o pintor David Hockney, Nietzsche, Foucault etc. Ademais, os livros que você cita, principalmente O mundo desde o fim, tiveram poucos leitores e foram compreendidos por pouquíssimos desses, pois iam diretamente contra as principais modas intelectuais brasileiras, que não passavam, quase todas, de repetições das teses ao mesmo tempo reacionárias e pseudo-revolucionárias dos pensadores franceses chamados de “pós-estruturalistas”. Como eu desprezava essas modas, simplesmente preferi ignorá-las, quando devia tê-las comentado e criticado. Na minha coluna na Folha cheguei a fazer isso com alguns desses pensadores, mas o espaço não era muito adequado para isso. De modo que vejo muito desafio pela frente.


AETANO - Segundo o filósofo Gianni Vattimo, Nietzsche é um cristão inconsciente. Pergunto: sem o cristianismo, o que seria da filosofia de Nietzsche?


Parece simplório o pensamento de Vattimo: se alguém é cristão, é cristão; se alguém é contra o cristianismo (e quem foi mais contra o cristianismo do que Nietzsche?), é cristão também: apenas, o é inconscientemente...

Tendo sido desenvolvida em grande parte contra o cristianismo, é realmente difícil saber o que seria da filosofia de Nietzsche sem o cristianismo. Mas a verdade é que, pelo menos desde Agostinho, não podemos saber o que seria da filosofia de nenhum filósofo, se o cristianismo não existisse. Digo mais: o que seria do seu ou do meu pensamento ou mesmo da sua ou da minha vida, caso não existisse o cristianismo? Impossível responder. Como seria o mundo, se não existisse o cristianismo? Mistério.


AETANO - Para Domenico Losurdo, quando o assunto é Nietzsche, prevalece a "hermenêutica da inocência", segundo a qual - sendo sucinto - Nietzsche não teria nenhuma relação com a "mitologia ariana", com o antissemitismo e o anti-abolicionismo, já que seria o "grande teórico do indivíduo". A obra de Losurdo, "Nietzsche: o rebelde aristocrata - biografia intelectual e balanço crítico", foi recebida aqui no Brasil - até onde eu sei - com um grande silêncio. Você não acha que a intelectualidade brasileira é complacente com Nietzsche?


CICERO - Acho que sim. O livro de Losurdo deveria ser lido. É absurda essa hermenêutica da inocência. Basta lembrar por exemplo que, em A genealogia da moral, Nietzsche tece fantasias precisamente sobre os bárbaros germânicos, as suas blonde Bestien, “feras louras”[1]. Uma das suas anotações póstumas afirma que, além dos bárbaros que vêm do fundo, “há um outro tipo de bárbaros, que vêm do alto: uma espécie de naturezas conquistadoras e dominadoras que buscam um material a que possam dar forma”. E, em O Anticristo, ele diz: “Quem eu mais odeio, dessa gentalha de hoje em dia?” E responde: “a gentalha socialista, os apóstolos da chandala, que corroem o instinto, o prazer, o sentimento de satisfação do trabalhador com sua existenciazinha – que o tornam invejoso, que lhe ensinam a vingança... A injustiça jamais se encontra na desigualdade de direitos, mas na aspiração a direitos iguais...”. Contudo, a verdade é que Nietzsche se contradiz muito, de modo que não creio que ele deva ser lido em primeiro lugar como filósofo, mas como artista. Penso que quem o toma como filósofo comete sérios equívocos.


AETANO - Os seus textos, sem prejuízo do rigor, são muito claros. Na prosa, quais são as suas influências?


CICERO - Não sei. Gosto de filósofos que, embora possam ser considerados difíceis, por exigirem concentração e/ou cultura filosófica, dizem coisas precisas e inteligíveis. Como diz Aristóteles na “Retórica”, o discurso bom é o claro, pois, se o discurso não afirmar algo definido, ele não cumpre a sua função. A honestidade do pensador se manifesta na sua clareza. Por isso, concordo com Tvzetan Todorov, que diz que, para um intelectual, fazer-se entender é uma necessidade ética.

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1. NIETZSCHE, 1954c, p. 11. Embora eu tenha optado aqui pela tradução convencional para a expressão blonde Bestie, não posso deixar de mencionar o excelente comentário de Caetano Veloso, segundo o qual, no fundo, a tradução que faria jus a essa expressão seria “loura burra”.

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