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10 de mai de 2013

Clara Favilla: A propósito de chuvas temporãs e chuvas serôdias






Deixo aqui um texto que achei muito bonito, de autoria da minha amiga Clara Favilla, a quem agradeço pelas observações elogiosas a meu respeito, as quais, de resto, não passam de expressão de uma italiana generosidade.



Dizem que usamos no máximo 200 palavras pra expressar o que queremos no dia a dia. Estamos acostumados a um vocabulário pobre e recorrente. Um  linguajar arroz com feijão, de tão básico. Como feijão parece que também está saindo de moda, melhor chamar esse linguajar de arroz com arroz. E daqueles sem sal, sem salsa ou qualquer especiaria. 

Jornais e revistas, noticiário televisivos, filmes até os de trama mais complexas, sem falar nas peça publicitárias, contribuem para essa nossa pobreza na comunicação oral e até escrita. Afinal, tudo precisa ser dito o mais rápido possível e com palavras que todo mundo entenda. 

A opção pelo óbvio reduziu muito o que entendíamos por clareza na exposição de ideias. Raro alguém garimpar aquela palavra sonora, bendita, na elaboração de textos de leitura diária e obrigatória. De vez em quando, tropeçamos em cacos, estilhaços dos filões de belezas soterradas. Alguém grita: "Eureka!". E navegamos pela Grécia Antiga, nas ondas ancestrais da filosofia. É bem verdade que alguns engraçadinhos, envergonhados de tal conhecimento, gritam: "Corega!". Sim, muitas vezes nos nivelamos por baixo para fazer parte do bando. 

Enquanto eu crescia, gostava de ouvir os antigos da família. Eles não estavam contaminado pelo vocabulário da hora. Uma das minhas avós dizia a palavra "alhures" com a maior naturalidade. Outra, soltava, aqui e acolá, um sonoro "quiçá". Nenhuma falava "lanche", nem "lancheira". Mas "merenda" e "merendeira". Rico era "nababo". E advogado, "rábula". Uma das minha avós falava portuliano como a maioria das avós da minha cidade. Achava simplesmente, quando criança, que elas eram apenas senhoras de um jeito muito próprio de se fazer entender pelos respectivos clãs. 

Avós também escreviam com grafia de outras épocas: "ella", "pharmácia", "cousa". Já faz algum tempo que o falar e o escrever andam perdendo a identidade geracional. Avós, filhos, netos e bisnetos falam as mesmas gírias e abreviam palavras ao escrevê-las. As vogais estão desaparecendo. Vejam:  "pq", "qd".  "Beijo" no singular é "bj". No plural, "bjs". O abraço quase desaparece num mesquinho "ab". No plural, "abs". 

Algumas consoantes também desaparecem quando escrevemos. A verdade empobreceu e é apenas vdd. E não culpem o Twitter. Essa redução já vem acontecendo faz tempo. Além disso, qual a parcela da população é tuiteira? Essas reduções de grafia podem ser comprovadas em bilhetes, cartas manuscritas e em e-mails de gente que nunca tuíta, que nunca manda mensagens de textos via celulares. Digamos assim, é uma tendência. Textos inteiros começarão a sair assim com palavras sem vogais e com um mínimo de consoantes. Quem viver verá. 

Uma boa oportunidade de se ouvir palavras mágicas, plenas de significado é frequentar igrejas. Nas católicas tem as leituras de passagens bíblicas e a do  Evangelho do dia. Pena que ao comentá-lo o padre de plantão recorra ao vocabulário mais rasteiro. Padres e pastores demolem qualquer vestígios de beleza em seus sermões ao comentar epístolas, salmos, parábolas. Os Evangelistas certamente tornaram-se cegos e surdos nas Alturas. Mesmo iluminadas em vida pelo Espírito Santo e transformados em plena luz depois da morte, não encontrariam palavras que traduzissem a ira terrível e santa pelo que fizeram  de suas palavras com o passar dos séculos. 

Bem, tudo o que escrevi tem a ver com post aqui neste blog* com o título Sobre indignações cínicas e Serôdias, do amigo Aetano. Confesso que precisei recorrer ao dicionário. Serôdio do latim "serotinus" - que age tarde, tardio. Adjetivo. 1. Que vem no fim da estação própria. 2. Que aparece ou acontece fora do tempo considerado próprio. 3. (Figurado) Que já se sabe há muito tempo, equivalente a antigo, velho. 

Não sei se a formação em Direito de Aetano é a causa dele nos brindar com tais pérolas. Pode ser o tipo de leituras que faz. Só sei que fico feliz quando preciso recorrer ao dicionário. Nem tudo está perdido. Há ainda pessoas neste mundo, dessas perto de nós,  que não se contentam com o linguajar da hora. Que usam natural e devidamente palavras cheias de conteúdo, ainda não desgastadas. Palavras que reluzem feito jóias raras, quando resgatadas da obscuridade ou de nichos nem sempre acessados. E nos fazem lembrar de chuvas temporãs e chuvas serôdias e o conteúdo místico que as envolvem desde o cerne. 



Clara Favilla
Mineira de Ouro Fino, mora em Brasília. 
Mãe de Isabel Favilla, flautista e fagotista barroca. 
Escreve por ofício e destino


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