Web Statistics
Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens

17 de nov. de 2015

Alexandre Vidal Porto: "Deus, esse sacana"





Estupendo este artigo de Alexandre Vidal Porto* -- publicado hoje, na Folha de São Paulo --, com o qual eu concordo integralmente: 




Se você olhar um mapa dos atentados do último fim de semana em Paris, verá que eles ocorreram ao longo do boulevard Voltaire.

Não sei isso foi intencional, mas a associação do iluminista Voltaire a desatinos do fanatismo religioso confere a esses ataques terroristas uma simbologia adicional.

Voltaire foi um dos principais defensores das liberdades individuais, e muito do que entendemos sobre a necessidade de independência do Estado em relação às religiões vem de suas ideias.

Em 1736, escreveu uma peça intitulada "O Fanatismo ou Maomé, o Profeta", na qual criticava a manipulação e o fundamentalismo religiosos.

O texto se utilizava de episódios da biografia de Maomé para criticar o despotismo do clero e da Igreja Católica. Não sei se os terroristas de Paris sabiam disso.

Hoje, as democracias modernas estimulam a diversidade e o multiculturalismo. A Inglaterra, por exemplo, chega a abrigar líderes religiosos radicais que pregam guerra santa contra o Ocidente. A mesma coisa acontece em outros países europeus.

No entanto, é democrático permitir a existência de grupos cuja intenção declarada é impor a toda a sociedade sua visão dogmática de mundo? O fundamentalismo islâmico do EI, por exemplo, fala na eliminação de todos os não muçulmanos.

A ideia do fundamentalismo religioso é patológica: alguém acha que adquiriu o monopólio da verdade divina. Acaba conseguindo convencer outras pessoas de que fala em nome de Deus. A partir daí, quem não concorda com o emissário divino está ferrado. Não há mais argumento possível.

A intolerância religiosa é desonesta: o que ela quer é poder. A espiritualidade e a ignorância são exploradas para manipulação política e econômica.

Não é por nada que o EI quer controlar um território. Não é por acaso que líderes religiosos, em geral, vivem de forma mais opulenta que seus fieis.

Na democracia, dogmas religiosos não podem ser impostos. Todo mundo –padre, pastor, imã, rabino etc.– tem de concordar com isso. Se alguém quiser impor comportamento ou moral religiosa compulsórios, saímos do Estado democrático para a teocracia.

O fanatismo e o fundamentalismo religiosos são fenômenos globais. Sob outra forma e denominação, eles também avançam sobre o Brasil.

Um personagem de Voltaire, o Cândido, depois de ter passado por vicissitudes e intempéries em vários lugares do mundo, chega à conclusão de que o caminho para o otimismo e a paz entre os homens é "cultivar nosso próprio jardim".

Os terroristas matam infiéis em Paris, e, no Brasil, uma Comissão Especial da Câmara dos Deputados aprova uma Proposta de Emenda Constitucional (99/2011) que autoriza igrejas a questionarem regras e leis diretamente junto ao STF, como se as igrejas já não contassem com privilégios em excesso.

Só em benefícios fiscais, recebem cerca de R$ 4 bilhões anualmente.

O Senado já sinalizou que não vai aprovar a ensandecida proposta.

No entanto, é preocupante que tenhamos na Câmara essa espécie de "Mullahs brasiliensis", que não fazem abluções nem gritam Allahu Akbar antes de desferir o golpe, mas que, como o EI, querem assumir o poder do Estado e excluir os que não rezam como eles.




*Alexandre Vidal Porto é escritor e diplomata, mestre em direito (Harvard). Serviu na missão na ONU e no Chile, EUA, México e Japão. É autor de "Sergio Y. vai à América" (Cia das Letras). Escreve às terças na Folha.




28 de mar. de 2015

Enquanto Cunha exerce seus podres poderes...



Esta semana ainda quero postar algo que escrevi sob o título "religião e acolhimento". A ideia central é dizer que não levo a sério o religioso que pretende fazer com que o estado adote a sua fé particular (o que considero, nos termos atuais, uma extorsão), assim como não respeito nenhum cristão que não tenha bastante amor por aquilo que ele -- na sua viagem íntima e privada chamada "religião" -- acredite ser uma interdição ou "pecado". 

27 de abr. de 2013

Entrevista de Frans de Waal à Folha



Sempre defendi que um homem religioso pode ser um tolerante ou um indiferente, enquanto um ateu pode ser um militante intolerante do ateísmo. Sempre defendi que é possível tiranizar o outro em nome de Deus, tanto quanto é possível ser tirano em nome de princípios racionais e ateus. Por isso é com alegria que reproduzo a entrevista que Frans de Waal, um renomado ateu, concedeu à Folha de hoje (27/04/2013, Caderno "Ciência + Saúde"). Nela, ele afirma: "O inimigo não é a religião, é o dogmatismo". Confiram:

Religião não é fonte da moral, mas eliminá-la é temerário

PRIMATÓLOGO FRANS DE WAAL CRITICA MESSIANISMO ATEU EM LIVRO

REINALDO JOSÉ LOPES COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Para alguém que tem se especializado em demonstrar que o ser humano e os demais primatas têm um lado pacífico e bondoso por natureza, Frans de Waal conseguiu comprar briga com muita gente diferente.
Autor de "The Bonobo and the Atheist" ("O Bonobo e o Ateu"), que acaba de sair nos Estados Unidos, o primatólogo holandês-americano provavelmente não agradará muitos religiosos ao argumentar que ninguém precisa de Deus para ser bom.
Seu modelo de virtude? O bonobo (Pan paniscus), um primo-irmão dos chimpanzés conhecido pela capacidade de empatia com membros de sua espécie e de outras, pela sociedade tolerante, sem "guerras", e pelo uso do sexo para resolver conflitos.
Com base nos estudos com grandes macacos e outros mamíferos sociais, como cetáceos e elefantes, De Waal diz que a moralidade não surgiu por meio de argumentos racionais nem graças a leis ditadas por Deus, mas deriva de emoções que compartilhamos com essas espécies.
Bonobos e chimpanzés sabem que é seu dever cuidar de um amigo doente, retribuir um favor ou pedir desculpas.
Por outro lado, o livro é uma crítica aos Novos Ateus, grupo capitaneado pelo britânico Richard Dawkins que tem dado novo impulso ao conflito entre ateísmo e religião desde a última década.
"Eu não consigo entender por que um ateu deveria agir de modo messiânico como eles", diz De Waal, ateu e ex-católico. "O inimigo não é a religião, é o dogmatismo."




Folha - Quem está mais bravo com o sr. depois da publicação do livro?
Frans de Waal - Bem, no caso dos ateus, recebi muitas mensagens de gente que me apoia. É claro que, em certo sentido, estou do lado deles, tanto por também ser ateu quanto por acreditar que a fonte da moralidade não é a religião. O que eu digo no livro é que os Novos Ateus estavam gritando alto demais e que precisam se acalmar um pouco, porque a estratégia deles não é a melhor.

Em seu livro, o sr. faz uma referência ao romance "O Senhor das Moscas", de William Golding, história na qual garotos perdidos numa ilha reinventam vários aspectos da sociedade, inclusive a religião. Mas a religião que eles criam é brutal, com sacrifícios humanos. O sr. acha que a religião nasceu brutal e foi ficando mais humanizada?


Acho que não. Quando olhamos para as sociedades tradicionais de pequena escala, que foram a regra na pré-história, vemos que esse tipo de coisa não está presente entre elas.
É claro que elas tinham crenças sobre o mundo sobrenatural e podiam sacrificar um ou outro animal aos deuses, mas, no
geral, eram relativamente benignas.
É só quando as sociedades aumentam de escala que elas começam a se tornar mais agressivas e dogmáticas.

Quando se enfatiza o lado pacífico e ético das sociedades de primatas não humanos e do próprio homem, não há um perigo de
fechar os olhos para a faceta violenta dela?

Concordo que, nos meus livros mais recentes, essa ênfase existe. Por outro lado, meu primeiro livro, "Chimpanzee Politics" ["Política Chimpanzé", sem tradução no Brasil], era totalmente focado na violência, na manipulação maquiavélica e em outros aspectos pouco agradáveis da sociedade primata. Mas a questão é que surgiu uma ênfase exagerada nesses aspectos negativos, e as pessoas não estavam ouvindo o outro lado da história.

O sr. acha que encontrar um chimpanzé ou bonobo cara a cara pela primeira vez pode funcionar como uma experiência religiosa ou espiritual?


Eu não chamaria de experiência religiosa (risos), mas é uma experiência que muda a sua percepção da vida.
No livro, conto como a chegada dos primeiros grandes macacos vivos à Europa no final do século 19 despertou reações fortes, em vários casos deixando o público revoltado porque havia essa ideia confortável da separação entre seres humanos e animais. Por outro lado, gente como Darwin viu aquela experiência como algo positivo.

E o sr. sente que essa aversão aos grandes macacos diminuiu hoje?


Sim, e isso é muito interessante. Eu costumo dar palestras em reuniões de sociedades zoológicas de grandes cidades aqui nos Estados Unidos. Tenho certeza de que muitas pessoas ali são religiosas. E esse público é fascinado pelos paralelos e pelas semelhanças entre seres humanos e grandes macacos ou outros animais.
Isso não significa que queiram saber mais sobre a teoria da evolução, mas elas acolhem a conexão entre pessoas e animais.

Na sua nova obra, o sr. defende a ideia de que não se pode simplesmente eliminar a religião da vida humana sem colocar outra coisa no lugar dela. Que outra coisa seria essa?


É preciso reconhecer que os seres humanos têm forte tendência a acreditar em entidades sobrenaturais e a seguir líderes. E o que nós vimos, em especial no caso do comunismo, no qual houve um esforço para eliminar a religião, é que essa tendência acaba sendo preenchida por outro tipo de fé, que se torna tão dogmática quanto a fé religiosa.
Então, o temor que eu tenho é que, se a religião for eliminada, ela seja substituída por algo muito pior. Acho preferível que as religiões sejam adaptadas à sociedade moderna.

Outro argumento do livro é que o menos importante nas religiões é a base factual delas. O mais relevante seria o papel social e emocional dos rituais. Para quem é religioso e se importa com a verdade do que acredita, não é uma visão que pode soar como condescendente ou desonesta?


Pode ser que, para quem é religioso, essa visão trivialize suas crenças. Mas, como biólogo, quando vejo alguma coisa que parece existir em quase todos os grupos de uma espécie, a minha pergunta é: para que serve? Que benefício as pessoas obtêm com isso? Não tenho a intenção de insultar ninguém com esse enfoque.


THE BONOBO AND THE ATHEIST
EDITORA W.W. Norton & Company
PREÇO R$ 29,35 (e-book na Amazon.com), 313 págs.


***