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22 de set de 2015

Trecho do capítulo "O indivíduo sitiado", de "Vida líquida"




Um aforismo meu -- que me foi inspirado pelo filme "Para Roma, com amor", de Woody Allen, e que era uma reflexão sobre a (boa) crise de referências na modernidade -- dizia: "a celebridade é a nova autoridade". Hoje descobri que não estava sendo original. De certa forma, Bauman* já tinha dito o mesmo... e muito mais. 
  


Como insinuou recentemente Dany-Robert Dufour, todas as "grandes referências" do passado ainda estão disponíveis para uso nos dias de hoje, mas nenhuma delas tem suficiente autoridade sobre as demais para se impor às pessoas em busca de referência. Confusos e perdidos entre muitas reivindicações de autoridades concorrentes, sem que haja uma voz suficientemente alta ou audível que se destaque da cacofonia e forneça um motivo condutor, os habitantes de um mundo líquido-moderno não encontram, não importa o quanto se esforcem, um "porta-voz confiável" (um que "sustente para nós o que não conseguimos sustentar quando deixados por nossa própria conta" e que "nos assegure, diante do caos, uma certa permanência -- de origens, propósito e ordem"). Em vez disso, eles têm de aceitar substitutos notoriamente não-confiáveis. Tentadoras ofertas alternativas de autoridade - notoriedade em lugar de regulação normativa, celebridades efêmeras e ídolos por um dia, e assuntos do momento igualmente voláteis extraídos das sombras e do silêncio por um holofote ou microfone nas mãos de um repórter de TV, e que se desvanecem da ribalta e das manchetes à velocidade de um raio -- servem de sinalizadores móveis num mundo desprovido dos permanentes.


*Bauman, Zygmunt. Vida líquida. Tradução de Carlos Alberto Medeiros -- Rio  de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007, p. 45.

    

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